top of page

EU, ADVOGADO ?

EU, ADVOGADO?

Relembrando para exercitar a sua memória...
Em 1884, mudei para o(s) interior(es) da Bahia. 
Em 1887, passei a exercer meu primeiro cargo de Juiz. Ainda estava solteiro e dividia minhas aflições poéticas, políticas e jurídicas com o jovem Sales Barbosa. 
Em 1888, acompanhamos o
13 de maio da Princesa Isabel – finalmente um passo para o final da Escravidão. 
Em 1889, o 15 de novembro. Com algum atraso, soubemos da virada de Império para a  República de generais e marechais. 
As notícias demoravam a chegar. 
Por cartas
ou jornais enviados por amigos, parentes ou malotes do judiciário. 
Folheávamos tanto que as tintas sujavam os dedos. 
Difícil lavar. 
Será que eu já namorava Carolina?
Como comemoramos?
Entre cafés e chás com bolos de puba, as conversas atravessavam as fronteiras da Bahia e do Nordeste e chegavam ao Sudeste, com a política entremeada entre Rio, São Paulo e Minas. 
Nossa despedida de Amargosa teve uma ponta de tristeza e um sabor de vitória. 
No dia 3 de agosto de 1892, fui promovido para a Comarca de Salvador. 

Quem é do meio jurídico, sabe das ansiedades que antecedem a promoção. Estava eu atribulado por dois concursos disputados. Para a cátedra de Direito Civil da Faculdade de Direito da Bahia e para o Tribunal de Apelação e Revista — atualmente conhecido como Tribunal de Justiça da Bahia.


SIM, FUI ADVOGADO... 
Aqui me dou ao direito de sair um pouco do script do que escrevi sobre Direito. 

Vou tergiversar sobre um escritório que cheguei a ter. Faz tempo. Foi assim que cheguei em Salvador e já pensava na prole que iríamos criar. Era preciso sustento. Ainda estava inseguro sobre ser juiz e professor.  


Ser advogado é uma profissão nobre. Feito padre, precisa de vocação. Até um certo celibato é necessário. Abnegação. Dedicação. Saber ouvir. Treinar a expressão. Como no confessionário. 

Não se pode julgar quem abre sua alma e, através das palavras, entrega seus pecados. 

O advogado deve deixar o julgamento para o juiz ou para os jurados, quando houver. 

É preciso ouvir o homem e a mulher acusados de cometer um crime. Crer na sua palavra, estudar os autos, pesquisar as leis e defender até o juízo final. A confissão do réu e da ré precisa ser respeitada. Nem a polícia pode violá-la. 

Certa feita, ouvi uma frase que tem meia verdade, seja positiva, seja negativa:
 
– Quando um advogado não tem um caso, cria um caso.


Vivi esse dilema quando me estabeleci em Salvador. Cheguei a publicar um anúncio no jornal.

                                                                                          ADVOGADO BACHAREL 

                                                                                      Filinto Justiniano Ferreira Bastos

                                                                          BAHIA - Rua do Commercio n0 3 –10  ANDAR

                                                         Encarrega-se de negócios de sua profissão, fóra da capital

Creio que não me adequaria ao batente advocatício. Creio, também, que minha pesquisa sobre leis e a vontade de publicar livros, seriam prejudicadas. Espero ter acertado no passo e na desistência de ser bacharel, causídico, doutor, jurisconsulto, jurisperito, jurista, legisperito ou legista. A mesma vontade que me fez desistir de ser cônego, canônico, padre, sacerdote, eclesiástico, ministro ou reverendo. Teria sido bispo ou cardeal? Só a vontade dos meus tutores não me bastava. Optei por ser magistrado, togado, desembargador, ministro, um pouco mediador, árbitro e julgador.

 

FIRULAS JURÍDICAS

Há uma história minha que era para ficar entre paredes. Uma cena muda, diria eu.

Já que Fernando, meu biógrafo, cometeu a 'indiscrição'  de publicá-la em 1956, no livro A Justiça através de um Juiz, fiquei  liberto para reproduzir nesta suposta auto-biografia que ora você lê.

 

Aconteceu com o advogado Alfredo Amorim, retratado por Fernando como 'pardavasco, baixo, rosto de queijo gruyère, palestrador de gestos e trejeitos e pronúncia sertaneja' e que já brilhava nos meios jurídicos soteropolitanos.

De fato, uma figura singular. Bom criminalista, também lecionava. Diante de jurados, usava e abusava da retórica e de citar 'Introdução à Medicina do Espírito', o que provocava claque entre discípulos. Apelar para o livro de Maurice de Fleury tinha efeito 'científico-emocional', como gosto de dizer.

 

Boa lábia, orgulhava-se de conversar com os ‘caboclos’. Explico. Éramos nós, os juízes.  Eu era considerado um 'caboclo velho'. Dr. Amorim chegara a declarar aos colegas:

– É, velho, não adiante ciência nos casos de honra com o velho Filinto Bastos e Newton de Lemos. É pau na certa.

Certa feita – uso de novo a expressão – veio me visitar para narrar sobre um caso que iria a julgamento.

Em seu livro, Fernando chega a pintar o quadro com palavras:  

– Amorim pequeno e fluente, embora tocasse os bicos dos pés do tapête, parecia grande; e o velho Filinto, de boa estatura, dava a impressão de pequeno, meneando a cabeça e mordiscando o bigode.

 

Sim, mordiscar o bigode era um tique, leve mania, um amuleto para quem não fumava ou tinha vícios. A consulta-palestra teve o que se chama 'nariz de cera', expressão também usada entre jornalistas. Uma introdução imensa para um caso curto. Desfilou todos os seus argumentos. Explicou em detalhes porque defenderia determinado acusado. Esmerou-se em contar o motivo de se votar pela inocência:

– Então, mestre, tenho ou não tenho carradas de razão?

 

A resposta precisava de um suspense para se coadunar com a narrativa romanceada descrita pelo criminalista.

– Sim, tens toda razão.

 

Dr. Alfredo Amorim saltou satisfeito da cadeira. Também fiquei de pé, nossas alturas se alternaram, e ponderei:

– Há uma cousa, Dr. Alfredo Amorim, não poderá o colega contar com meu voto. Tenho que me dar como 'suspeito'.

 

Ao sair, tentei capturar seu ar de surpresa. Vivi a tentação de ouvir o que diria pelas ruas, caso o seguisse. Controlei-me.

Como confessei acima, abri escritório no primeiro andar da Rua do Commercio, 3. Cidade Baixa, perto do Cais. O tijolinho de jornal, tipo classificado, tentava vender meu trabalho. Durou pouco. Não era minha praia, minha vocação, meu prazer, meu estímulo. Fechei. Simplesmente assim.   

bottom of page