top of page

SEMINÁRIO SANTA TEREZA

SEMINÁRIO(s)

Creio em Deus sobre todas as coisas.

1870-1875.

Cinco anos de vida de interno. Cinco anos de solidão,

apesar de ter muita companhia.

Cinco anos de muita conversa com Deus e, quem sabe,

contra o Diabo que, virava e mexia,

invadia nossos sonhos.

Nos dois primeiros anos, conclui o curso inicial.

O Teológico foi em três anos. A partir dali,

como já dito e descrito, precisaria aguardar a maioridade para me

ordenar padre.

O prédio em que ficávamos nós, os menores, fora cons-

truído depois, muito depois, do principal,

século 17. Era meio desajeitado.

Soube que já foi demolido para dar lugar ao Museu de

Arte Sacra.

Melhor assim. Não coadunava com a arquitetura do

edifício principal. Fora construído apenas

para receber as crianças e adolescentes que lá chegavam.

Não deveriam conviver com os maiores,

até por exemplo.

Piso principal e dois andares acima. Catorze janelões em cada andar.

Esta é minha mania de

contar. Portanto, eram vinte e oito de cada lado.

A minha cela ficava virada para a Baia de Todos os Santos, graças a Deus. Do lado de cá, dava

para a Ladeira da Preguiça –  e para a bagunça das ruas soteropolitanas, fácil de se ouvir.

Lúgubre, como descreveu Monsenhor Carlos Luiz d’Amour, Cônego Vigário Capitular do Arcebi-

spado da Bahia, que vim a conhecer, em seu Relatório ao Arcebispo D. Joaquim Gonçalves de

Azevedo.

Datado de 20 de maio de 1877, descrevia:

–  O Seminario Archiepiscopal está dividido em duas Secções, e em edifícios separados, cada

Secção com sua economia particular e Superiores próprios.

– A primeira Secção, ou de Sciencias Ecclesiasticas, funciona no antigo Convento dos Religiosos

Therezios, edifício o mais improprio para um Seminario: fundado para habitação de Religiosos

ascéticos e penitentes apresenta um aspecto lúgubre e inspira melancolia. Está além d’isso mal

situado e cercado de pequenas cazas, que para não serem devassadas como o erão d’antes pelas

janelas dos cubículos dos Seminaristas, foi preciso que o venerando Prelado fallecido mandasse

levantar um muro de modo à evitar-se semelhante vista.

Devo concordar. Principalmente pela melancolia. Talvez ali tenha descoberto que minha verdadeira

vocação estava no Direito.

Dentre as disciplinas que prestei, segue a lista:

EXEGETICA

HISTORIA SAGRADA E ECCLESIASTICA

THEOLOGIA DOGMATICA

DIREITO NATURAL E ELOQUENCIA SAGRADA

INSTITUIÇÕES CANONICAS

LITHURGIA

CANTO GREGORIANO

Como dito, datado de 1877, havia 45 alumnos matriculados, sendo 18 no primeiro anno, 10 no

segundo, 8 no terceiro e 9 no quarto. Em 1876, ingressaram 39 jovens pretendentes ao celibato.

E eu nesta história? Em 1875, foram 37 matriculados versus 9 que concluíam o Curso Theologico.

Eu estava entre os nove.

Em resumo, uma formação geral com disciplinas laicas que serviam para todos, não só para futuros

padres. Havia até o aviso que os pais de família não precisavam se recear. Não era apenas para

quem aspirava ao sacerdócio.

Além do Reitor e do vice-reitor, cinco empregados desempenhavam suas funções: mordomo, porteiro,

copeiro, servente e censor.

Censor?

O Relatório do Monsenhor d’Amour revelava que o Seminário também era proprietário de “quatro

casas, à saber um sobrado na rua do Bispo, e trez casas térreas, sendo uma na travessa da rua do

Fogo, e duas atraz da Igreja da Palma”.

No Arquivo Público do Estado da Bahia, é possível pesquisar.

Creio que fui consequência do Concílio de Trento, que construía alicerces a partir de uma reforma

moral e intelectual. Para evitar a escassez universal do clero, a Igreja Católica baiana e brasileira

preocupou-se com a formação.

Lá estava eu.

Celibato, necessidade do uso do hábito sacerdotal, ativa vida secular e desconhecimento das leis

canônicas eram os problemas apontados ao prelado.

Entre homens, só na Bahia, existiam 31 Ordens de Beneditinos, 41 Carmelitas, 36 Franciscanos e

13 Capuchinhos.

Entre Congregações femininas, 33 Franciscanas do Desterro, 16 Franciscanas da Lapa, 25 Ursulinas

das Mercês e 20 Ursulinas da Soledade.

Para as mulheres, especialmente, começavam a surgir novas opções para participar da vida pública.

Mas até a época, era uma forma de promoção social. Apesar do claustro em conventos e monastérios,

sobrava o desafio educacional para as classes alta e média urbana e o socorro dos pobres.

Manchetava o ‘Noticiador Católico’:

– Os Seminários Eclesiásticos são santos retiros onde os jovens clérigos, e aqueles que aspiram as

Santas Ordens, vem a tempo moldar-se ao espírito de seu estado e como nutrir-se desde a infância

do leite da Doutrina Eclesiástica e da Piedade Sacerdotal, que aí se conserva como em sua fonte.

Promessa:

– Só deles é que podem sair homens prudentes e amestrados, que saibam descer até o mais íntimo

d’alma humana, para ali deixar as consolações da Religião de que são ministros. Que saibam não

espantar-se a vista das iniqüidades do coração do homem.

Lá fui eu, por desejo próprio e de meus tutores.

O destino final era Roma.

O curso do Seminário Maior, por outro lado, era destinado ‘aos moços (alumni) em estado de se

consagrar ao estado superior de filosofia e de teologia’, com duração de aproximadamente 4 anos.

Cadeiras: História Sagrada, Exegética, Teologia Moral e Dogmática, Direito Canônico, Direito

Natural e Eloqüência Sagrada. 

A ideia era congregar os seminaristas – que se dividiam entre externos e internos – em locais fecha-

dos era uma só: exigir conduta regular para evitar o ‘turbilhão dos divertimentos de uma cidade’, e

ao mesmo tempo ‘na perniciosa torrente das más companhias’.

Socorros espirituais para a salvação. Ordem, rígida disciplina de horários e restrição para o contato

com o  mundo exterior. O celibato era – e é – o desafio.

O discurso da Santa Sé era claro: 

– Utilizem os tesouros da piedade e da doutrina acumulados nos Seminários, para que, com o tempo,

não se maculem as suas almas com o pó mundano, e não deixem extinguir os excelentes princípios

tão laboriosamente adquiridos na época dos estudos.

Todo o conceito originou as Ordens religiosas e Congregações que passaram a atuar na Bahia do

início do século XX depois de serem perseguidas no período Imperial.

Motivo: os bens.

O desafio era reestruturar as funções internas da estrutura arquidiocesana e no contato com a socie-

dade baiana. A população baiana crescia na capital e no interior.

As Ordens e Congregações serviam como mão-de-obra substitutiva ao clero secular – e tinham bens,

muitos e bons bens: engenhos, terrenos, fazendas, casas e escravos.

Isso, escravos.

O Estado cobiçava.

Em 1855, o Império acelerou seu processo de extinção. A ordem era ‘reformar’.

A ‘lei de mão-morta’ era fato.

De lei entendo, modéstia à parte.

Os religiosos se encontravam em avançada idade quando viraram o século. O Seminário perdeu

importância quando retornei a Salvador. Menos membros.

Menos vocação ou menos estímulo?

Caridade atrai caridade.

Para a Igreja diocesana, o discurso teórico da bondade cristã funcionava como propagador da

doutrina católica para enfrentar a chegada dos protestantes.

Soube por outro Relatório, mais de 60 anos depois de minha saída, que a situação de barulho e

balbúrdia nas ruas piorara:

– (...) casas de repúblicas de estudantes, oficinas barulhentas, atordoantes aparelhos de rádios, por

vezes inconvenientíssimos, etc, a per

 

 

turbarem de continuo a solidão e o silencio indispensaveis ao

estudo e a formação eclesiástica dos candidatos ao sacerdócio. 

Ah, excesso de som é um dos males da Bahia...

Não tive descendentes, que eu saiba, seguindo a vocação religiosa.

Sinais dos tempos.

 

CONFISSÃO(ões)

100 linhas. Se tiver paciência, conte-as.

 Cometi meu Confiteor. Minha culpa, minha máxima culpa.

Caso não goste, aprecie o das Missas.

Caso não aprecie poesia, pule...

Procurei inspiração em atos que tão bem conheço. Confessar e penitenciar. Reconhecer os pecados.

Respeitar a Igreja. Pedir à Virgem Maria e a todos os santos que intercedam junto a Deus. Perdão

pelas erros cometidos. Purificação. Viver a celebração. Orar. Rezar junto com o terço. Bater a mão

direita no peito.

 

                  CONFITEOR

Às vezes se me alteia o pensamento e vôa

Pela etherea região, onde somente echôa

A suave e pura voz da santa Caridade

Que prende o tempo negro à clara eternidade

E aos olhos do morta, que libra a phantasia

Na aza de opala e luz do archanjo da poesia

A terra é tenue chamma a pairar no negrume

Qual em trevas a noite inquieto vagalume.

 

Então o poeta vê transfigurar-lhe a fronte

O despontar dos sóes no ceulo horizonte

Occulto à plebe atroz, que ao Capitolio eleva

O algoz, o scelerado, e, enfurecida, leva

O Christo justo e bom ao cimo do Calvario

Occulto à plebe que ama o sangue, a côr vermelha

Do manto do Rei-Crime, a cujos pés se ajoelha,

Qual servo que, humilhado, em Roma dissoluta

Servia de capacho à altiva prostituta!

 

Terra, foge de mim! Parca sanguisedenta !

Aura vinda do céo, inspira-me, aviventa

Meu ser! Mostra-me a azul estancia desejada

Por aquelles que têm no peito retratada

A imagem da virtude angélica, espledente

Ao reflexo da luz do seio omnipotente !

Bem longe vai agora o borborinho, a grita,

Que lança, impetuosa, a multidão maldita

Da treva e confusão... Que o espirito se libre

Além e a meu contacto, enthusiasta, vibre

A nota do psalterio em honra à virgem pura,

– Religião divina – amparo à creatura.

 

Embora o scepticismo, a rir-se, indifferente,

Queira banir a paz do espirito do crente,

Qual negra mão de infame arranca, despiedosa,

A c’roa virginal, a joia preciosa,

Do proletario à filha, e a flor de laranjeira

Do lupanar atira à lubrica soleira;

Embora a sciencia van, do atheu o vil sofisma,

Que não sabe explicar da luz o ethereo prisma,

Não queira um só olhar, – nem mesmo de relance –

Dar à Religião, e suas vistas lance

Para o Inferno onde o Dante – aquella inscripção dirá

“Lasciate ogni speranza, o voi chi entrate”— vira

Minha’alma não se volve ao pó do impiedade! ...

Repudiar o Deus que prega a liberdade

Para me lançar todo aos braços da descrença,

Que esmaga o coração – enorme ferrea prensa –

Não posso!...

            Que me importa o escarneo da vaidade

Que confunde a música e as vozes da verdade,

Se a farpa do sarcasmo encontra uma armadura

No peito em que do Eterno existe a crença pura?!

“Venceste, Galileo!” bradava Juliano,

Da morte no estertor, fazendo sobrehumano

Esforço por zombar do filho de Maria,

E proclamando – o Deus, de Deus zombar queria!...

Ao sopé dessa cruz do Golgotha divino

Minha alma ajoelhou-se, a desferir um hymno

De amor e adoração ao Deus omnipotente !

A redentora cruz acolheo penitente !

E em santas emoções o peito meu nem palpite

Ou transe doloroso o coração me agite,

Fito na cruz o olhar – e o meigo Nazareno

Mostra-me o ceo azul, com divinal aceno.

Do sacrossanto lenho os braços estendidos

Abrem-se p’ra amparar da terra os foragidos,

Os que imploram justiça, os que têm sede e fome,

As crianças sem paes, os pariás sem nome,

Os humildes, os bons, da sorte os deserdados.

As victimas da infâmia – os bemaventurados!

E qual do sol um raio em penhascosa gruta

Afugente de chofre a escuridão que a enluta,

A luz de crença aclara o abysmo da amargura,

E a divina esperança as almas transfigura !

O verbo que tirou da sepultura fria

O predilecto irmão de Martha e de Maria,

É que póde ao mortal, da sorte ao duro açoite,

Mostrar o alvôr do dia em vez da escura noite.

Só elle ao indigente, ao misero que soffre

Do confôrto oferece o precioso cofre.

Longe, longe de mim os vãos arrazoados

Com que a mentira eleva, em termos empolados,

Uma sciencia falsa, uma falsa doutrina

Que, repudiando o Christo ante o Nada se inclina

Depois do vendaval, da noite borrascosa,

Como íris – resplandeça a esp’rança bonançosa.

Após duro luctar co’as forças da matéria

Apraz-nos ver além, na região etherea,

Esse régio alcaçar aurifulgente e santo,

Onde tudo extasia em esplendor e encanto:

Das estrelas o brilho, a angelica harmonia,

As delicias do céo, os dons da poesia.

 

Mas, ai !, passou o enlevo, e só descubro a terra !

E o erro, e a escuridão, e tudo o que ella encerra,

Faz-me volver o olhar à minha contingencia

E me leva ao lidar insano da existencia !

 

E emquanto os passos meus dirijo pelo mundo,

Se acaso das paixões no pelago profundo

Minha alma se afundir e blasphemar do Eterno,

Lembra-me, ó Cruz divina, a voz da penitencia,

Sobre mim lança, ó Cruz, um raio de clemencia;

Amparado por ti, eu vencerei o inferno.

                                              

São Paulo, março de 1879

FILINTO BASTOS

IMG-9840.jpg
bottom of page