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FACULDADE DE DIREITO_SÃO PAULO

Como escrever ou transcrever pensamentos? Além dos estudos, usava a caneta Klio, que tinha deposito de tinta. A propaganda no jornal dizia que são reconhecidas como as melhores e mais perfeitas.

Como diz o anúncio do jornal reproduzido acima e aqui transcrito:

– Emprega-se com qualquer penna e não vazam. Devido a um botão pneumatico a tinta sae só quando se deseja, pode usar outra vez a tinta que restar na penna depois de acabar de escrever, isto simplesmente apertando um botão.

 

Mais, dizia que eu poderia levá-la no bolso do paletot ou collete, sem perigo de manchar-se. O preço de 108.000 réis, inclusive acompanhada por um apparelho para encher com tinta, assustava.

 

A herança de meu pai ajudou a comprar. 

 

Local? Rua São Bento, 26. Será que o prédio ainda está lá?

AS ARCADAS

O destino da Faculdade das Arcadas se cruzou com o local onde Padre Anchieta e colegas escolheram para criar uma cidade. Lembro com carinho os períodos que passei entre esses livros, grande parte herdado do Convento de São Francisco, que virou hospedeiro dos estudantes, em catres transformados em classes de aula.

 

São Paulo era pequenina perto da 'metrópole' Salvador. Os sobrados e casas tinham trancas nas janelas para impedir que moçoilas e senhoras exibissem seus rostos para as ruelas. Os prazeres se davam entre uma ou outra serenata que a estudantada apreciava.

Sempre dizíamos que a instalação do curso de Direito, em 1828, foi um sopro de vida para a cidade e para o estado.

Mas na época, é sabido, houve protestos e agitação.

‘Fim do mundo’ era o mínimo que se argumentava. Vilazinha provinciana. Isolada. Mal vista. Gentes de Minas Gerais foram os mais agressivos. Nem trem tem. Na imperial Rio de Janeiro, um azedo ciúme com pitadas de inveja.

Sem descendentes diretos de Tibiriçá e outras etnias, também me perguntei porque Dom Pedro I escolheu São Paulo. A explicação talvez esteja em seu amor pela Marquesa de Santos, que seguia impávida-colosso em sua argumentação e convencimento. Foram só seis anos depois da proclamação da Independência.

Junto com Olinda, na antiga Pernambuco de Maurício de Nassau, o Imperador número I decretou a sorte da futura metrópole. Lá se instalou a Faculdade e, feito colmeia, atraiu um enxame de abelhas estudantis. Burgo de Estudantes.

As elites brasileiras calçavam suas botas para enfrentar as ruas lamacentas e recheadas da bosta dos cavalos. Ainda era terra de tropeiros. Mas as classes ricas do Brasil também tinham seus sapatos estilo française e lãs sobre roupas de algodão. Valia de tudo para enfrentar o frio do Planalto Paulista, até fogueiras nas calçadas para esquentar as mãos e as vozes.

A vida cultural no lugar depois chamado Paulicéia, por um moderno poeta, começou tímida. E a estudantada das Arcadas determinava novo ritmo para a vida da cidade .

Pasmos e sobressaltados, os pacatos habitantes 'dezenovecentistas' passaram a conviver e, até, admirar os jovens. Por trás das janelas de rótulas, as moças recatadas escutavam alunos e professores em serenatas. Mas para eles não podiam olhar, nem serem olhadas.

Ah, lembrei. Não foi no Anhangabaú. Gostava mesmo era de nadar no Tamanduateí. Lindo e sonoro nome: Ta-man-dua-tei. Alguns dizem que significa o 'rio do tamanduá verdadeiro'. Os sertanistas tentaram mudar para rio Piratininga, ‘peixe seco’, como era chamada toda a região das cinco aldeias indígenas na chegada dos jesuítas.

Outros acreditam que o Tamanduateí vem a ser o ‘rio de muitas voltas’. De fato, serpenteia. Começa lá pela Serra do Mar até desaguar no rio Anhembi, o famoso Tietê, único rio brasileiro que segue do mar para o interior.

Concordam que são nomes lindos?

Vira-e-mexe sigo a me remeter a essa tendência paulista de preservar o Tupi.

Muita gente me pergunta sobre os prazeres e exercícios que os jovens faziam na Paulicéia do século 19.

Nunca fui muito dos bares e das festas. Algumas as frequentei, com certeza.

 

Porque sou cristão, mas não sou santo.

NÓS, OS FUTUROS BACHARÉIS 

Recordo, de cor, as anônimas Trovas Acadêmicas.

Reitero que não são minhas:

 

"Quando se sente bater
No peito heroica pancada,
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer

A moça disse pra outra
Com esse eu nã
o me arrisco
Pois ele estuda Direito
No Largo de São Francisco

Não sei se é fato ou se é fita
Não sei se é fita ou se é fato
O fato é que ela me fita
Me fita mesmo de fato

Deus pôs as pragas no mundo
Pra punir os infiéis:

No Egito pôs gafanhotos
E no Brasil, bacharéis!"  

Gosto da blague. Ser bacharel me ajuda no poder da ironia.

Assim como o café, que aprecio sem moderação, o Brasil penetrou no século 20 com um tipo de ouro negro, mas sadio, plantado, que não precisava de mão de obra escrava e das más condições de trabalho das minas – e colhido por japoneses e italianos que atravessaram oceanos e subiram a muralha da Serra do Mar para fugir da pobreza e fome de seus próprios países.

É a herança do século 19, na qual me orgulho de ter participado. Inclusive na luta pelo fim da escravidão, nas Arcadas do Largo de São Francisco, através da Sociedade Emancipadora.

Para escrever meus pensamentos, usava a caneta Klio, que tinha deposito de tinta. A propaganda no jornal dizia que são reconhecidas como as melhores e mais perfeitas.

 

Como diz o anúncio do jornal reproduzido acima e aqui transcrito:

– Emprega-se com qualquer penna e não vazam. Devido a um botão pneumatico a tinta sae só quando se deseja, pode usar outra vez a tinta que restar na penna depois de acabar de escrever, isto simplesmente apertando um botão.

 

Mais, dizia que eu poderia levá-la no bolso do paletot ou collete, sem perigo de manchar-se. O preço de 108.000 réis, inclusive acompanhada por um apparelho para encher com tinta, assustava.

 

A herança de meu pai ajudou a comprar. 

 

Local? Rua São Bento, 26. Será que o prédio ainda está lá?

 

De volta aos livros.

 

Assim como os opressores, as publicações não gostam de luz solar e de umidade.

 

Mantê-los de pé ajuda na sobrevivência. Não sei como meus livros sobreviverão. Inclusive os exemplares que espalhei, junto com minha amada Carolina, a doce Dona Calu, entre filhos, netos e descendentes diretos e indiretos.

DOCUMENTOS ORIGINAIS 

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