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CAROLINA CALU

CALU

Um passo para frente... Meu momento mágico.

 

Eu era juiz em Caetité, mas atendia a região de Amargosa. Corria o ano de 1884 e já comemorava o vigésimo oitavo

aniversário.

Carolina da Silva Rocha, carinhosamente chamada Calu, filha de José Feliciano e Januária, era uma adolescente de 13

para 14 anos. A conheci pelo dever da profissão. Primeiro, tive contato com o pai, que tinha recebido o título de capitão,

por regra do Império, para prestigiar os donos de terras.

Posso ter sido convidado para um almoço na famosa Fazenda Timbó.

Outra versão seria uma missa onde fui apresentado para Dona Januária Rocha. Forte sobrenome.

Talvez, quiçá, as filhas e filhos do casal estivessem na missa. Seria uma quermesse?

Fica o mistério: como terei conhecido Calu?

Nunca revelei nos meus escritos.

Ao casarmos, ela tinha 20 e eu 35.

Por que alguém se apaixona por alguém tão mais jovem?

Ela era virgem.

Eu era virgem?

Fica aqui a dúvida para vocês, herdeiros.

Compartilhamos a alegria dos passeios.

Até hoje, tem dia que saio de casa já com vontade de voltar.

Ela e eu... 

Em uma carta, meu pedido da ‘mão della’.

A escrevi sob forte emoção. 

ESCRIVANINHA

Além de sentenças, poemas.

Quem precisou ter paciência para meus isolamentos foi Carolina, preocupada sobre minha postura sobre a escrivaninha

de madeira nobre que ganhei depois do meu discurso em Recife.cDescrevo-a.

De certa forma, lembra um modelo oriental, com toques europeus. De qual madeira nunca descobri.

Importada sim. Esqueci de me certificar quem foi o dono original e quem teve a ideia de me presentar.

Hoje deve pertencer a alguma bisneta, pois a deixei para meu neto Jorge.    

Além de sentenças e poemas, cartas.

Sim, sou um missivista compulsivo.

A que me deixou mais feliz cá está.

Aqui. Abaixo. A seguir...

 

Caetité, 26 de julho de 1890.

Meu bom amigo cap. José Feliciano

Excellente saúde e mil felicidades. Foi com o maior prazer que recebi hontem sua estimada carta

de 8 d’este mez, em que me dá certeza de ter sido aceito o meu pedido à mão da exma. senhorita

D. Carolina, sua digníssima filha. Agradeço-lhes, feliz, e à excelentíssima D. Januária a honrosa

distinção, de que procurarei fazer-me sempre digno.

Como nos achamos a distancia, em que nos não é fácil encontrarmo-nos pessoalmente, há de

permitir-me que eu alongue n’esta carta, expondo-lhe com franqueza minha intenção.

Nutro o desejo de realizar o mais breve possível o meu casamento, e espero que concordarão

commigo em fazêl-o ate o fim d’este anno. Estou preparado, e pude obter n’esta cidade uma

excellente casa onde moro, e ter os cômodos desejáveis para uma grande família. Espero que o

meu bom amigo entre em ocorrido n’este ponto, attender a que não há conveniência em retardar o

enlace, a cuja realisação do seu consentimento, e a que, em virtude do cargo que exerço, e da

distancia em que me acho, não me convem estar por muito tempo fora de exercício, e me é penoso

fazer constantes viagens. Alem de tudo, para respeito de meu espirito e de meu coração, é da

minha conveniência em próximo casamento.

Em quatro mezes preparo-me perfeitamente a exma. D. Carolina, que não vai viver em capital, e

(...data indecifrável até para mim...) em Dezembro, quando pretendo estar em Timbó, realizaremos

nossos comensais.

Espero que concordará commigo e é esta a minha única exigência, que (...indecifrável até para mim...)

supponho  não seja desarrozoada. Se concorda com meu pedido, comunique-me imediatamente,

dirigindo-me a carta para esta cidade, pelo correio de Tapera, por ser depois mais facilmente

recebida, e então remeterei os documentos e explicações precisas para o edital de proclamas de

Juiz de Paz de Amargosa, e se obterá dispensa de proclamas para o casamento religioso

Recomendo-me a exma. snra. D. Januária, a todos de sua família, e peço-lhe venia para

recomendar-me affectuosamente a D. Carolina.

                        o amigo pelo coração

                        Filinto Bastos 

 

 

Sabe-se lá porque o casamento acabou sendo realizado no começo de janeiro.

‘Linda festa, pá’, diria o meu pai.

A carta foi, na minha visão, minha melhor poesia.

Eis aí o Timbó...

A escrivaninha tem 150 centímetros.

No vão debaixo, tem um arco para colocar as pernas,

cercado por duas gavetas.

Sobre o tampo, há um pequeno vão na parte detrás que

se divide em quatro pequenas gavetas, duas de cada lado.

No meio, seis mini arcos que

servem para colocar objetos.

Descrevo-a.

lembrança da primeira comunhão de Carolina

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