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PIRAJÁ DA SILVA, MEU AMIGO MANOEL

PIRAJÁ DA SILVA, MEU AMIGO MANOEL

Fiz meu curso preparatório para a Faculdade de Direito na Faculdade de Medicina. 
Era o que podia. 
Século 19 não era para amadores. 

Ao lado do Pelourinho, um impressionante conjunto arquitetônico diretamente acima do Pelourinho, bem em frente da Catedral e no lado oposto da Igreja de São Francisco e da Ordem Terceira, onde agora estou. 
O prédio não é ess
as coisas. Ostentoso, diria. Portentoso, talvez. Despersonalizado, quiçá. 
Se tivesse talento, qualidade ou perseverança, pesquisaria sobre o agente patogênico e o ciclo fisiopatológico da esquistossomose. Que doença terrível. Quantos dos meus já sofreram dela? 
A transmissão começa quando alguém elimina ovos do parasita através das fezes e da urina. No Brasil sem saneamento básico, é grande a chance de para alguma água poluída. Os ovos eclodem em larvas e chegam a caramujos de água doce. Ciclo terrível. As larvas maturam e se multiplicam. Se algum ser humano beber dessa água, pisar descalço, lavar roupas, preparar alimentos ou nadar, a chance de infecção é alta. Chega ao intestino e reinicia o ciclo. 
Que dor. 
É a barriga d’água e a febre do caramujo. Entre doenças e condições crônicas, chance de cirrose, como pesquisada pela primeira negra a se formar em medicina na Bahia, sobre quem falarei no próximo Degrau.
Além da cirrose, coceiras e alergias na pele. Ou dor no corpo. Ou calafrios. Ou falta de apetite. Ou fadiga e prostração. Ou emagrecimento. Ou tosse. Ou diarreias. Ou náuseas e vômitos. Pobre do fígado. Triste baço. Até impotência sexual. 
Existe uma receita para preveni-la. Chama-se Manuel Augusto Pirajá da Silva. 
Falo do meu querido contraparente, nascido na linda Camamu, litoral sul, lá por 1873.

Muito elegante, sempre – de colete, gravata-borboleta e chapéu francês – e prevenido, mais ainda – com seu inseparável guarda-chuva – escoltou meu neto Jorge a um passeio com Elisa no Jardim Botânico. Foi em 1928. Conto mais adiante. Aqui, eu só subiria a meia de Jorge, para ficar mais aprumado e preparado para os dias de julgamento e idas ao Fórum. Afinal, Pirajá era filho de Desembargador.Naturalista e médico, foi quem identificou o ciclo completo da esquistossomose. O sobrenome Pirajá tem origem em uma das grandes batalhas pela Independência. O próprio avô, português, prestou essa homenagem.  Português arretado contra Portugal. Eu conheci o Manuel em Amargosa, onde trabalhou depois de se formar em 1891. Feito eu. Casou-se com Elisa Rosa, irmã de Carolina. Coincidência histórica. Figura concisa e bem humorada – tinha sempre uma reflexão ou uma tirada para descontrair o ambiente. Direto. Objetivo. Sinto saudade de nossas prosas. Fez sua grande descoberta ainda em 1904, ao analisar um paciente. Infelizmente anônima. Fosse eu, teria escrito um tratado sobre ter sido tratado por Pirajá. Manuel Augusto escreveu a descrição completa do parasita Schistosoma mansoni ou Shistosoma americanum. O ‘Archives de Parasitologie’, periódico francês, publicou. Fama internacional.  Viajou para a Europa em 1909, para ampliar as pesquisas. Em Hamburgo,  estudou no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais – ‘Tropeninstitut’. E lá publicou um trabalho muito aplaudido sobre a ‘cercária da esquitossomose’.Em seguida foi para o Instituto Pasteur, em Paris, onde virou figura carimbada no laboratório de parasitologia da Faculdade de Medicina de Paris, entre 1911 e 1912. Os tristes trópicos mandavam notícias.De lá, nos enviou um cartão postal, que meu filho José vai comentar mais adiante. Na volta, dirigiu a Seção de Botânica Médica do Instituto Butantan. Ou seja, no caminho inverso ao meu, foi para São Paulo – onde o guarda chuva é peça chave...Pirajá em sua luta contra a esquitossomose do indivíduo.Eu, na luta contra a esquitossomose da sociedade.Muito antes disso, enfrentamos muitos outros degraus…

 

HESPANHOLA 

Eu e Carolina consultamos Pirajá algumas vezes. Especialmente no ano final da Primeira Guerra Mundial. O mundo tinha vindo abaixo.  Uma pandemia foi carimbada como Gripe Espanhola. Surgiu no Hemisfério Norte, infectou milhões de pessoas e se propagou em ondas de diferentes intensidades.  Em março de 1918, apresentou baixa taxa de mortalidade. A partir de agosto, veio a onda altamente virulenta e com expressivo número de óbitos. Nossa neta Heloisa, filha de Cora e Geraldo, nasceria em 12 de setembro, justamente quando a Bahia registrou seus primeiros casos. Como protegê-la?  Como proteger Jorge, o irmão nascido um ano antes? Em 28 de outubro, o jornal O Imparcial ‘manchetou’:– A terrível epidemia. Charges traziam a representação da morte ceifando vidas. A terceira onda, menos virulenta, abriu o ano de 1919, quando se espalhou pelo interior bahiano. Peste bubônica. Febre amarela. Varíola. Cólera. Gripes. Algumas palavras não servem para poesia. Sociedades constroem respostas às doenças. São diferentes para cada período e espaço geográfico. Indivíduos e comunidades utilizam signos, práticas e preceitos para racionalizar, administrar e combater doenças. Foi assim desde que os primeiros grupos humanos se reuniram. Pelo menos imagino assim. Etiologia, transmissão, terapia e significados de uma enfermidade. Sempre com as ferramentas intelectuais de cada época e lugar.

As histórias de peste são semelhantes: começa discreta, mas contínua. E crescente. Shakespeare que o diga. Em Romeu e Julieta, o mensageiro que poderia salvar as vidas do casal se atrás por causa de uma quarentena. Sabia o que escrevia. 
Como peça de teatro: 
Ato 1 - A sociedade admitir. 
Ato 2 – Explicar o fato. 
Ato 3 – Adotar a prevenção: Isolamento. 
Ato 4 – O surto some aos poucos pelas esquinas. 

Teríamos nós de enfrentar mais mortes do que já fomos condenados na família Bastos? Fizemos nossa parte. Quarentena. Desinfecções. Deixei as salas de aula e o salão do júri. Confinamento. Finalmente descobri o significado de uma prisão que, muitas vezes, sou obrigado a enviar alguns indivíduos. 
Salvador era vítima fácil. 
Cidade com porto grande e grandes conexões transcontinentais. O paquete inglês Demerara tinha atracado no dia 11 de setembro de 1918. Como disse, no dia seguinte nasceu a neta Heloisa, de olhos azuis. Pouco a pouco, passageiros desembarcados começaram a morrer. Contagiosa, se espalhou. Adoecimentos. 
Notícias de jornal. Finda a Grande Guerra, surge um novo cenário de morte. 
Autoridades públicas e sanitárias começaram na defensiva. 
Ora, ora, ora. 
Os números seriam nada perto dos males da disenteria, da malária, da peste, da varíola, da febre amarela e da tuberculose. Como sempre, disputas políticas entre facções – inclusive de um mesmo partido, o Partido Republicano Democrata. Crise econômica pela queda de importação e exportação por conta do conflito internacional. 
A diversidade de sintomas e sinais e as altas taxas de mortalidade atingiam, em cheio, adultos jovens. 
Estranho, diria Pirajá. Seria um vírus filtrável, transmitido por mosquito? 
Inocentes insetos. 
Bacteriologistas tinham uma obstinação: vacina. Pressão dos jornais. 
‘Cresce a mortandade!’.
‘Cifras eloquentes sobre o estado sanitario da cidade’.
‘E, na classe média, as cifras são alarmantes’. 
Logo abaixo, uma foto com a legenda: 
– Um aspecto do cemitério do Campo Santo, hontem. 
Nossa palavra de ordem: profilaxia e terapia. Sempre.

Tradição clínica e higienista. Ponto para a medicina baiana. Comissão formada para investigar a questão clínica e epidemiológica. Corporações e instituições públicas e privadas foram elencadas. 500 doentes – ou mais – foram observados. Confirmado: nenhuma doença nova. Uma influenza com (in)esperada virulência.
Feito na febre amarela combatida por Oswaldo Cruz, a culpa estava nas condições de moradia, péssimas, precárias, espremida em porões, sobrelojas, casas de cômodo, cortiços e casebres. 
Ah, Salvador. 
O efeito da longa escravidão mostrava sua face. 
Libertos mas sem emprego, ex-escravizados foram morar onde puderam. O vírus veio assim. Velocidade máxima feito canhão. Raio grande de ação. Falar, tossir ou espirrar virou palavrão. Esputos e perdigotos contaminados contaminavam a circunvizinhança.
Criou-se a categoria grupo de risco. Pobres, mal alimentados, aglomerados, idosos, recém-nascidos (ai, minha pequenina Heloisa), grávidas ou em estado puerperal (ai, minha doce Cora), obesos, portadores de doenças preexistentes ou crônicas e, especialmente, vítimas de crises respiratórias, como asma, bronquite e tuberculose.
Feito época de guerra, foram criadas zonas sanitárias. 
Nós, do Direito, ajudamos a legislar o tema. 
Indigentes eram prioridade. Farmácias distribuiram remédios. Vigilância domiciliária. Seria a ditadura do bem? (se é que pode se chamar assim). No porto de Salvador, quarentena dos navios. O mar não era uma via satisfatória. 
A regra apreendida com meus pais e tutores era uma luva: lavar sempre as mãos. Desinfetar as vias respiratórias superiores com antissépticos nos fazia respirar. Nunca escarrar no chão. Evitar aglomerações e pânico. Restrições  para relações sociais com amigos e parentes, além de alunos e profissionais. Abraços, beijos e apertos de mão, só nos sonhos. 
Mesmo com a população majoritariamente analfabeta, havia rápida compreensão sobre os ‘Conselhos ao Povo’, como divulgavam os jornais. E não estou falando de Outubro de 17 na Rússia. Outra história. 
Acredito que a humanidade se basta por duas tecnologias: água encanada e eletricidade. Nada disso existia na grande Salvador. 
Sem serviços básicos, inclusive esgoto, a gripe uniu-se com as parasitoses, doenças venéreas espalhadas com o sexo. A tuberculose. As doenças disentéricas. A malária. Os surtos de febre amarela e peste bubônica de volta... 
A mais triste delas, a morbimortalidade.
Por impressionante que seja, a gripe espanhola foi apontada como coisa da oposição política. Enquanto cidades de aliados dos governantes recebiam ajuda, a dos opositores viviam a pão e água. 
A manchete de O Imparcial de 28 de outubro de 1918 diz tudo: 
– A influenza na Bahia é... política! 
Autodefesa e solidariedade. 
Religião. Nunca os tambores dos terreiros e os incensos das igrejas tiveram tanta força. Aglomeração estava proibida. Porém, sempre há um porém, nada impede as forças sobrenaturais e manifestações de fé.
Guias, banhos de folhas, sacrifícios e oferendas aos orixás. Consultas em centro espírita. Promessas. Ladainhas. Missas. Adoração de santos e procissões. 
O arsenal de receitas de tias e avós fez sucesso: chás, xaropes, escalda-pés, purgantes, suadouros, cataplasmas e outras mezinhas. 
Perdi colegas de escola e de trabalho. Perdi pessoas da família. Perdi vizinhos. Consternação e angústia. 
A Salvador de 320 mil habitantes ficou mais triste. Mais de 130 mil pessoas contraíram a gripe. As mortes nunca foram contadas de fato e me nego a dar o número oficial. 
Assim como em Portugal, prefiro chama-la de ‘Gripe de 1918’.

CATEDRÁTICO DE HISTÓRIA NATURAL PARASITOLOGIA

MANOEL AUGUSTO PIRAJÁ DA SILVA

            ( 20.01.1873 - 01.03.1961)

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