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MINHA DESPEDIDA

ÚLTIMO SUSPIRO

Hoje é dia 06 de fevereiro de 1939. Meu filho José está ao meu lado. Isso é bom e mau sinal. Afinal, estou no leito. Sei que escreve um postal-cabograma para sua esposa, D. Maria de Lourdes Caldeira Bastos, a quem chama de ‘minha querida mãe’. E assina ‘Velho’. O casal vivia em Florianópolis, na rua Visconde de Ouro Preto, 74, que infelizmente não conheci.

José descreve a situação em que estou:

PERSPECTIVA

(A Osalvino Araujo)

 

Da varanda. À ladeira avermelhada

De meandros de cobra vão subindo

Confusa multidão; alguns vão rindo,

Alguns chorando, por aquella estrada...

 

Encaminham-se à fúnebre morada,

Um caixão mortuario conduzindo...

Quantas ideas negras vão surgindo

Ao cérebro de alguns, em tal jornada! ...

 

Somem-se todos, surgem de repente,

Qual mais cançado preocupado ou serio

Da muralha aluziante à porta, à frente.

 

Da varanda é o que veo: esse funereo

Cortejo que conduz, indiferente,

O morto a repousar no cemiterio.

Caitité, 5 de Agosto de 90.                  

Filinto

Minha querida mãe:

Você deve calcular como estou lhe escrevendo já quase à hora da partida, a bagagem à bordo, meu pai teve um desequilíbrio enorme e nós esperávamos que elle se passasse de repente. Infelizmente continua mal e não sei se V. ao receber esta linha tenha vivo o seu sogro que tanto lhe quer. Espero que tenha explicado o meu caso ao Nereu. Caso meu Pai ainda melhore, seguirei depois de amanhã.

Beijos do seu triste Velho. 6_2_39

Pois é, meu caro José.

No depois do amanhã, quem partiu fui eu...

Nereu, para quem não sabe, era grande amigo da família. Soube que viria a ser governador de Santa Catharina, como se escrevia.

Mas isso é outra história.

 

 

PARTIDA

08 de fevereiro de 1939. Calor. Salvador ferve.

 

É como se eu estivesse lambendo ‘imbira’. Saúde debilitada.

 

O verão só termina em 28 dias.

Antes disso, em 10 diárias, a capital da Bahia vai se eletrizar pelo carnaval.

Estou em minha casa na Joana Angélica, 110. Cidade Alta.

Percebi movimentos preparatórios na Faculdade.

Querem solicitar minha despedida de corpo presente antes de meu corpo seguir para o Campo Santo.

Lembro bem. Era quarta feira. Odor de velas pela casa.

Creio em Deus Pai Todo Poderoso.

Creio, também, que rezam por mim.

Minhas filhas mais jovens. Ercília, Laura e Margarida.

Meus netos Jorge, Heloisa e Cora. E Nelito.

José está aqui comigo.

João, apesar das questões de saúde – quiçá tuberculose – tem dificuldade, mas se faz presente.

 

Parti com hora marcada.

10.30 da noite. 22 horas e 30 minutos.

 

Vou ler, aqui, o que os jornais publicaram sobre mim. Será que já fiz a anunciada contagem de dias entre o meu nascente e o meu poente?

Assim como nascer, morrer parece um parto.

DEGRAU DO ADEUS

Em Caetité, ainda no século 19, ainda solteiro, tive uma visão da morte. Ou melhor, de sua despedida. Coloquei um nome provocativo. É mais um jeito de me despedir – e dizer que sigo por aqui...

 

SANTINHOS

O hábito dos Santinhos é uma tradição que se perde aos poucos.

 

O meu ficou assim:

Filinto Justiniano Ferreira Bastos

11-XII - 1856 / 8-II-1939 

Adormeceu no Senhor para despertar na sua Santa Glória, quem n´Elle pôz toda sua confiança. Elle encontrou no Senhor justiça e misericordia, porque foi nos caminhos da misericordia e da justiça que dirigiu seus passos em busca da celeste mansão.

 

O de Carolina foi singelo:

Meu Jesus, misericordia ! 

Nunca se perde com grande dor, o que se possui com grande amor.

São Belizário.

Uma prece por alma de Carolina Rocha Ferreira Bastos.

Nasceu a 2 de setembro de 1871

Faleceu a 21 de março de 1963

Descanse em paz

 

‘NÓS’

Prometi desatar o nó górdio ao final do livro. Cá está.

 

O nó foi criado por Midas, filho de Górdio, ao mandar suspender a carroça de boi com que o pai adentrou a cidade Telmesso – ato que o transformou em rei.

 

A partir dessa lenda, os gregos criaram uma profecia: quem desatasse o nó tornar-se-ia o soberano da Ásia. Tudo indica que Alexandre, o Grande, ao visitar a capital frigia, tirou a espada da bainha e desfez o nó com um golpe certeiro.

 

É como o dito popular:

– O sujeito está lambendo Imbira.

Quer dizer, ‘está em miséria. Más condições. Lambendo a fibra vegetal que se usa para corda.

 

De certa maneira, e sem metáforas ou parábolas, os destinos nos pregam peças – e nós.

 

ÚLTIMO DEGRAU

Ah, último detalhe. Fiz algumas promessas ao longo do meu livro e site.

Não sei se você se lembra do primeiro Degrau. A de contar os meus dias...

 

Pois bem, tive tempo aqui no meu recolhimento, sou bom de matemática e fiz a contagem.

 

Não sei para quê serve, mas fico, com bom humor, narrando essa curiosidade.

 

Nasci em uma Quinta Feira, 11 de dezembro de 1856.

Faleci em uma Quarta Feira, 08 de fevereiro de 1939.

Foram 30.008 dias.

Foram 83 anos, 01 mês e 28 dias.

É muita vida, não é mesmo?

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