POESIA



NA BUSCA PELA POÉTICA DE FILINTO BASTOS
Por Rita Trabuco, pesquisadora e mestranda sobre FB.
No meio do caminho, bem no meio do caminho da minha vida acadêmica, encontrei o amor pelo abolicionista e poeta romântico Filinto em quem, a dureza de um período insano, o fez compor Cena Comum – e com a leveza de ser F.B. Natural da mesma cidade do ilustre jurista que empresta o nome para o Fórum local e sob orientação do professor Adeítalo Pinho, tenho pesquisado livros, enciclopédias, artigos e jornais para sentir a certeza de estar no caminho certo. Estou a meio caminho de meu mestrado na Universidade Estadual de Feira de Santana com a monografia O poeta Filinto Bastos: Romantismo, Abolicionismo e Memória na Feira de Santana dos séculos XIX e XX.
Ler a biografia escrita por Fernando Alves foi um privilégio inenarrável.
Buscas e conversas com inúmeras pessoas me ajudaram a encontrar Isadora Leal, de Salvador, também natural de Feira, simpática e atenciosa, marca da família.
Na sequencia, passei a acompanhar a montagem da Árvore Genealógica que começava a ser montada por Fernando Bastos Filho, de Santa Catarina, e a escritura de um livro meio-biografia, meio-romance histórico, de Ninho Moraes, de São Paulo.
São os bisnetos em ação. Tenho visitado instituições – Museu Casa do Sertão, Biblioteca Julieta Carteado, CEDOC, Cúria Metropolitana, Igreja Matriz de Feira de Santana, Igreja e Cemitério Piedade de Humildes, Arquivo Público Municipal e IHGFS – e conversado com professores. Em Salvador, também busquei instituições e arquivos.
Mas a visita mais significativa aconteceu em 18 de março de 2018 na casa de veraneio na ponta de Humaitá, Cidade Baixa, comprada em 1917 por Filinto Bastos – e hoje ainda da família. Ainda busco palavras para descrever esse momento. Ainda sinto o vai-e-vem das ondas, trazendo a paz e equilíbrio que também norteou o viver do poeta. Visitar o espaço foi e é a melhor semente desse plantio que ainda está no início. As surpresas positivas foram e são imensas a cada descoberta sobre o menino, sobre o estudante das primeiras letras, sobre o seminarista, sobre o estudante de direito, sobre o presidente da Sociedade Abolicionista, sobre o poeta, o advogado, o juiz, o professor catedrático e o desembargador. E, acima de tudo, o filho, o pai, o tio, o avô e o amigo de todos.
É enriquecedor estudar a vida e obra de Filinto Justiniano Ferreira Bastos e visitar espaços de tão significativas vivências. Conhecer o seu amor pelos ‘tabuleiros de alecrins’.
F.B. certamente seria torcedor do ‘Touro do Sertão’.
Fica aqui o enigma para quem ler ‘A Vingança do Vaqueiro’, logo no tópico a seguir...
HUM ANNIVERSARIO
Certa feita, com 41 viradas no calendário, aproveitei um ano do passamento de um amigo para escrever uma triste poesia.
PRIMEIRO ANNIVERSARIO
Bahia, 17 de março de 1897
(da morte do Dr. Augusto Alvares Guimarães)
A Torquato Bahia
Deixou de sua pena luminosas
Lições – exemplos dignos do futuro.
Da liberdade ousado palinuro,
Aos captivos mostrou plagas ditosas.
Despresou a traição; o olhar seguro,
Firme, feria as almas ambiciosas
Das fatuas honrarias deshonrosas,
Presagiando-lhes um destino escuro.
Que meiguice no lar! Idolatrando
As tres filhas gentis, a fida esposa,
Parecia no céo estar pairando!
E esse amigo fiel, – como o sol pousa
Em frio ocaso –, a terra abandonando,
Um anno faz: tombou na fria lousa.
Tombar na fria lousa é uma precisão cirúrgica que devo ter aprendido no curso preparatório de medicina.
Palavras são palavras, amigo Torquato ‘da Bahia’.
Tais como:
– Até ali, por São Miguel, até ali, ‘basto’ eu!
DEGRAU NILO, O RIO
Entre o Nilo bíblico e os rios do Recôncavo, uma palavra de alento para a geração que estava nascendo...
Observação: os tracinhos -------- significam que meus ‘tradutores’ não identificaram o que escrevi.
Para atiçar sua curiosidade, inseri o nome de Thermuthis. Assim como a maioria das mulheres na Bíblia, ela existe mas é pouco reconhecida. Thermuthis é filha do faraó que determinou a morte de todos os hebreus recém-nascidos do sexo masculino.
Durante um ritual de purificação no Nilo, ao se banhar, Thermuthis encontrou uma arca com um bebê que chorava. Ela teve compaixão e disse: Este é um dos filhos dos hebreus (Êx 2: 4-10, Jasher 68: 17-23). Contrariou seu pai e salvou Moisés, que liderou a libertação do povo de Israel da escravidão do Egito. Moisés era filho de Joquebede que construiu uma arca e a soltou no Nilo para salvá-lo do infanticídio. E transformou a história.
DEGRAU SÃO FRANCISCO, O RIO
Do Nilo bíblico, salto para o rio da integração nacional. O que fui lá fazer? Deveria ter escrito um diário. Pelo menos, as letras abaixo registrei...
NO SÃO FRANCISCO
(Ao cap. Henrique da Rocha)
Eil-o perto de mim, vasando ainda
O magestoso Nilo brasileiro.
Petrolina – defronte: aqui a linda
Cidade esperançosa – Joazeiro.
Enorme variedade à perspectiva,
Incessante, se rusga, em mil encantos.
Ali, virente ilhota; além, altiva
Collina que convida a lyra dos cantos.
Do rio as aguas, leste, vai cortando,
Co’a véla panda, o rápido paquete.
O remeiro, ora está ao leme dando
Ora, ao remo, das agoas no joquête.
Em meio ao rio, brancas pénedias.
Os cabeços levantam, alterosas.
Rebatem-se os parcéis, níveas estrias
Borda a espuma nas margens arenosas.
Em varia direção, barcas pesadas,
Tendo à prôa figuras disformes
Luctam com as maretas que, enraivadas
E traidôras lhes dão botes enormes.
São os rudes transportes ribeirinhos
Que o commercio abastecem, com largueza.
As barcas do sertão sabem caminhos
Ignotos encontrar na correnteza.
Alem, a praia de seixinhos brancos.
Ao longe, as terras do sertão adusto,
Onde os riachos deixam só barrancos
E das ondas de pó se foge a custo.
O sylvestre espinhal, o cardo agreste,
Sobre areias ardentes, reina, medra.
No alto, o mais formoso azul celeste;
Em baixo, plantas secas, rude pedra.
Mais tarde, quando as chuvas provi ...
Chegarem as campinas ressequidas,
Os mattos vestirão fôlhas virentes,
Que as jandaias invejam de garridas.
Então, o S. Francisco, impetuoso
Grossas agoas do leito ...............
As agoas do oceano magestoso
... ....., nas comoções assemelhando
E é claridade esplendida da aurora,
Despertará o campo, alegre, o .........
Que ao ardor do verão que abraza agora,
Nos desprovidos galhos busca o alento.
Bravamente, a veloz locomotiva,
Levantando de fumo um obelisco
A sultana verá formosa e altiva,
Amante do soberbo S. Francisco.
Joazeiro – 10 de Agosto de 1888
Filinto Bastos
PRIMAVERA
Prefiro o saber jurídico do bem contra o mal, as orações espirituais e as criações literárias. Como prova, guardo o recorte de um jornal com data escrita à mão: 20/09/1935.
Palavras minhas.
PRIMAVERA
“Primavera! Um sorriso aberto em tudo! Os ramos, numa palpitação de flores e de ninhos”...
Ninguém sentiu melhor nem melhor exprimiu do que Bilac o esplendor, o delírio, a magnificencia, o deslumbrado encantamento de uma alma de artista deante do espectaculo estupendo de natureza do Brasil, sob a florada de luz da Primavera!
“Um sorriso aberto em tudo”. Que synthese melhor do que a que esse verso encerra, para dizer da maravilha de luz e côr e som que a Primavera enfeixa, com o cortejo abençoado de suas alegrias e de suas illusões? Que é a primavera senão esse desabrochar impetuoso e marulhante, polycromico e luminoso de ramos enflorados, essa inquietação febricitante de ninhos suspensos no ar, essa orchestração soberba, inimitavel de vozes passaraes a encherem a vida de alegria, de sons, perfume e amôr?!
“Primavera! Um sorriso aberto em tudo”! Nos jardins incendiados de corollas e nos lares atufados de esperanças novas, reverdecendo para illusões mais próximas! Alegria das almas jovens e dos proprios corações já fechados para os encantos divinos do Sonho e da Chimera, e que parecem rejuvenescidos ao influxo miraculoso desta estação florida.
“Primavera! Um sorriso aberto em tudo!”.
Para gloria da vida e para a vida do Amor!
– F.
F. sou eu.
A inspiração de minha minúscula crônica veio de um poema de Bilac, recheado de Rosas, Dulces, Lauras e Brancas. Acredito que você merece conhece-lo.
ÚLTIMA PÁGINA, por Olavo Bilac
Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos
Numa palpitação de flores e de ninhos.
Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos
(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.
Verão. (Lembras-te Dulce?) À beira-mar, sozinhos,
Tentou-nos o pecado: olhaste-me… e pecamos;
E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,
Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos…
Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,
Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,
(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor…
Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?
Passas as estações e passam as mulheres…
E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!
Foi como um suspiro bilaquiano...
DOIS BERÇOS
Um dia, sobre o Nilo frágil berço,
Boiara, sustentando uma creança.
Elle era a salvação, a luz, a -------------
Do povo de Israel em dor imensa
Em dor do captiveiro, que opprimia
Longe da pátria, acerba e rigorosa.
Aquelle berço à pátria bem saudosa
Como esplendida aurora, alvorecia!
Assim (hoje faz annos) rediviva
Neste paiz, a pobre mãe captiva
Do filho viu o berço livre, puro:
E Thermuthis – a Patria – acolhe o ingenuo
Que há de ser o leal, valido, estrrenuo
Defensor do seu bem, do seu futuro!
Amargosa – setembro 86
FILINTO BASTOS
