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EU NOS JORNAIS 

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IMPRENSA

Os jornais, a imprensa, os colegas do Quarto Poder, como se diz - ou dizia-se - sempre me trataram bem e com consideração. Mesmo pela minha passagem pelo interior da Bahia, lá estava eu, até quando em momentos de trocas e registros burocráticos e de cargos na Justiça.

Também fiz pequenas contribuições aos jornais. Começo citando um texto em defesa da Liberdade de Expressão em um pequeno jornal de Caravelas, sul da Bahia. Eu já morava em Salvador e já era professor e diretor na Faculdade de Direito. O título diz tudo.

Luz e verdade 

(Publicado no O Atlântico de Caravellas, número 2, 25 de julho 1915)

 

Repete-se constantemente que grandiosa é a missão da imprensa e, por isso, elevado o papel daquelles que nella mourejam. Na verdade, faz-se mister muita coragem, para vencer na estacada, por proprio esforço, os inimigos do bem e do progresso, estigmatizando todas as defecções ignóbeis, apontando todas as tibiezas, sem as preoccupações de vistas interesseiras. A imprensa diffunde a luz; mas, deve esta ser como o clarão do pharol que norteia para seguro ancoradouro e não fogo que se accende sobre escolhos para attrahir o navegante a um naufragio certo. A luz da imprensa deve ser a flamma da verdade.

            De que serve propalar em livros e jornaes, revistas e pamphletos, o amôr à patria, à sciencia, às artes, ao progresso, se nelles se mostram dominantes os odios dos sectarios, as provocações do orgulho dos que triumpham, os desabafos mal contidos dos que esperam, anciozos, o momento da revindicta, as paixões subalternas sobrepondo-se ao verdadeiro amôr que é desinteressado e heroico, a ponto de se considerar mais forte do que a morte?

            A verdade – eis o ideal da imprensa digna, para o qual deve estar sempre voltada com fé viva e indefectível, contando erguer-se dos revezes, que porventura soffra, sempre mais possante e robusta.

            O povo quer a bôa imprensa; a imprensa moralista e verdadeira, que não explora as vispaixões, mas que não endeosa os tyrannos; que censura os desmandos da demagogia, mas fulmina os excessos dos que governam sem escrupulos; que não procura tornar-se popular, adulando o povo, mas rende culto cultos ao patriotismo, defendendo o povo contra os botes da prepotencia. Mas, uma imprensa, assim considerada, é a luz do progresso alliada à verdade de bôa doutrina. Não devemos entende-la de outro modo.

– Que a hospitaleira cidade do sul deste Estado, cujo nome recorda as arrojadas embarcações lusitanas, que se aventuravam às solidões do mar e aos seus mysterios, em busca de longinquas plagas e climas diversos; que a cidade de Caravellas que se debruça sobre as praias do oceano, esperando de sua grandeza a magnificência do futuro, tenha no seu – O Atlantico um arauto vigilante e fiel, denodado e intemerato, que timbre em arrancar das entranhas do prólo a obra perfeita dos grandes operários coroando-se de luz pela verdade, amando a verdade, que faz rutilar a luz do progresso, e da victoria aos idéaes dos grande patriotas.

Bahia, julho de 1915

Filinto Bastos

PARASITA(?) 

Em defesa da liberdade de imprensa, abro um parêntesis para falar de um divertido periódico que foi lançado em 20 de maio de 1876 na minha Feira de Sant’Anna, pouco antes para meu embarque para SP.

Nome forte: A Parasita. Jornal Literário e Recreativo.

Propriedade de uma associação. Logo na primeira página, a crônica justifica:

– É um nome singular este para chamar uma gazeta, não acham? Pois bem, sejamos francos, em falta de um melhor, por mais conveniente, não há outro mais sincero. Ninguém se escandalize por isso. Estamos numa época, bem sei, em que todo mundo mente: o governo, a oposição, a direita, a esquerda. Dar as coisas o seu verdadeiro nome é o maior dos crimes: mas, que importa.

E prossegue em sua explanação:

– Cá por nós, quem não gostar coma menos. Era a máxima de um velho rico daqui que já espichou a canela e que todo mundo adula. Não há, porém, mais necessidade de argumentos para nós. Quem não sabe ser rei vive às custas de seus vassalos, a cura de seus fregueses, o comerciante dos pobres matutos a quem arrancam a pele e cabelo, etc. E que a Parasita se não vive tem de viver às custas de seus simpáticos assinantes.

Prossegue o irreverente pasquim feirense: 

– E faço ponto: amanheci hoje na maré de falar a verdade, não sou como muitos que não enfadam de mentir. Nela como, pão-pão, queijo-queijo. Dizia o velho conhecido Suzarte de suspirada memória com um palomba digno de um predecessor Sancho Pança. Esse homem que se tornou famoso menos pela dedicação a seu ilustre amo do que pela frequência de seus adágios. 

Aprecio as palavras escorreitas e diretas. Só não digo a quem eles se referem. Porque não o sei. Como juiz, preciso sempre me posicionar nos autos.

Nesse vai e vem, sem que ninguém me pergunte, posso dizer que aprecio, também, a teoria do eterno retorno ou eterna recorrência.

É a roda do tempo que está presente na filosofia indiana, Egito antigo, Eclesiastes judaico e por aí vai e vem. O cristianismo a solapou. Nossa existência voltaria recorrente por um número infinito de vezes.

Vejo poesia no pensamento. Dizem que Nietzsche fez a conexão do eterno retorno com vários pensamentos desenvolvidos por ele, inclusive a do amor fati, onde existe a aceitação da vida e do destino humano, até quando enfrentam os acontecimentos mais cruéis e dolorosos.

É preciso ter um espírito superior, o que não é meu caso.

A premissa é que o espaço e o tempo são infinitos.

Fiz esse atalho para avançar nos meus próprios pensamentos e aflições.

APOSENTADORIA

Bem que eu tentei. Mas não consegui.

 

Já debilitado, a menos de um mês de minha partida, tentei me aposentar das lides judiciárias. Queria passar os últimos dias com Calu e com minhas filhas e com João, já debilitado, ele, doente.

 

Fui vencido, mas não me entreguei. Sou ‘basto’. Apesar de ainda ser chamado de ‘Felinto’. Que destino...

 

Trouxeram-me um periódico que retratava os fatos. Deixo para você.

 

Diário de Notícias, 10 de janeiro de 1939.

A APOSENTADORIA DO DES. FELINTO BASTOS

O venerando magistrado, cedendo a insistentes pedidos, desiste do seu requerimento do Governo

O POR ISSO ESTÁ DE PARABÉNS O TRIBUNAL

O Superior Tribunal de Justiça da Bahia, essa collenda côrte judiciaria que honra e dignifica a magistratura brazileira, esteve a pique de perder, dentro de mais alguns dias, um dos seus mais elevados expoentes com o pedido de aposentadoria do venerando desembargador Felinto Justiniano Ferreira Bastos.

Encarnação incommum de juiz, que se fez com a perfectibilidade de uma alta consciencia, só inspirada nos requintados principios do Direito, da Equidade e da Moral pura, esse repeitavel membro do nosso Tribunal que, ao cabo de quase ao cabo de meio século de serviços inestimaveis à ordem juridico-social do nosso Estado, se sentiria sem energia para gosar o “otium cum dignitate” dos que, ainda moços, se aposentam, tem o seu nome tão perto ligado à vida do judiciario bahiano, que o seu desapparecimento do seio dos luminares que o servem estaria a justificar um movimento de espontaneas manifestações, para que conseguida fôsse a continuação daquelle sublime sacerdocio.

 

A DESISTENCIA DO PEDIDO

E isso foi o que, realmente aconteceu. Ao que estamos devidamente informados, o respeitavel e acatado mestre das letras juridicas, cedendo a reiterado encarecimento da imprescindibilidade da sua permanecia na cathedra judiciaria, resolvera, nestas ultimas 48 horas, abrir mão do pedido já encaminhado ao Governo do Estado, para a sua aposentação, fundada, aliás, em motivos de procedencia indiscutivel, porque se comprovam ao simples exame restrospectiva de uma vida trabalhada, em prol da justiça da nossa terra.

Essa interferencia, que levou o eminente jurisperito a voltar atrás no seu intento, fe-la o proprio Tribunal, pela reprentação de todos os seus demais membros, que vêem no collega estimado, e de virtudes nunca desmentidas, o douto companheiro, cuja ausencia abriria um grande vacuo naquella casa.

Nestas condições, portanto, estamos em que a desistencia do requerido pelo des. Felinto Bastos nos offerece ensejo para que felicitemos a magistratura, e especialmente o Tribunal, pela conservação de tão insigne magistrado, que ainda ficará sendo um exemplo modelar aos que abraçam a espinhosissima carreira de julgador.

 

Peço aparte. Coloque ‘espinhosissima’ nisso...

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