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OS PAPAS E AS ROMAS


EPÍSTOLA(s)  
                                                                                                                                 
Velhice terás forte e sem pesares.

Abro o Degrau sem introdução – e lhe convido para ‘julgar’ uma das traduções que fiz ao longo da vida longa. 

Sim, foi uma das minhas tentativas criativas, mesmo sem me considerar artista. 

Creio em Deus Pai e creio que cabe aqui, começo do livro, pois as ‘Epístolas Religiosas’ que traduzi em 1903, falam de longevidade. 

Eu já morava em Salvador, mas fazia frequentes viagens para o interior onde o ‘pecado’ dos excessos alimentares é mais tentador. 

A receita envolve boa água, pouco vinho, muitos alimentos naturais – legumes, verduras e frutas –, carne tenra, ovos frescos, contenção de doces e pouca, pouca, pouca, pouca, pouca Gula, o tal pecado. 

Tentei repassar para meus descendentes. Espero ter alcançado meu objetivo. Logo eu que nem acreditava que chegaria aos 83 anos – e Carolina aos 92. Que danada. 

Como sei? Sorrio e não revelo... 

Como revela a foto da família, eu e Calu podemos ser consideradas pessoas ‘altas’. Pelo menos acima da média. Uma pesquisa publicada em 1914 mostrou que a brasileira tinha a média de 1 metro e 51 centímetros e o brasileiro, 1 metro e 64 centímetros. Somos bem mais altos do que isso. Meus filhos provam. Caso da última filha, Margarida, de altura considerável. 

Desde criança sou descrito como o menino alto e magro que se veste de preto. 
Meu luto começou cedo, mas nada tem a ver com o tema. 
Magro sim, pelo cuidado com a alimentação – tema que depois tratarei. 
Aqui revelo nosso segredo. Meu e de Calu.

 

PRIMEIRA PARTE
DA Epístola a Fabricio Rufo
COMPOSTA EM VERSOS LATINOS PORL EÃO XIII
(Versão portugueza pelo Dr. Filinto Bastos)

Para poder fruir longa existência
Alheia a enfermidades, vigorosa. 
Expandindo-se em plena florescencia
Qual a alimentação mais vantajosa?

Eis os conselhos que, recentemente,
De Hippocrates cultor, fido e profundo,
O bom Ofello dava, ricamente
Da gula verberando o imperio do mundo. 

Antes de tudo, sê muito asseado 
Sem luxo vão, com toda a singeleza,
De alvo linho se cubra sua mesa,
Na nitidez da louça haja cuidado.

De tua adéga o vinho descansado
E puro bebe: ausenta-se a tristeza,
Se bom vinho libamos sem largueza,
Que em seu uso é mister ser moderado.

Para matar a sêde, não desprezes
Limpida taça d’agua crystalina,
Que se exgotta, sem risco, muitas vezes.

De trigo são, de massa branca e fina,
Teus pães sejam cosidos; sem revezes
A digestão terás, nunca mofina.

Se a gallinha, o carneiro, se a vitella
Te fornece o repasto, tem certeza
De que te dá saude e fortaleza,
Sendo tenras as carnes, e cautela

No preparo da vianda se prestando, 
Que nem chirivia, ou molho mui picante,
Ou de adubos mistura extravagante,
De qualquer modo a vá deteriorando.

Serve-te de ovos frescos e aquecidos
A brando lume, ou mesmo simplesmente,
Para sorvel-os molles, mal cosidos,
Ou por outra maneira differente.

Não recuses a taça de espumante
Leite puro se és velho, te avigora,
Como já te nutrira, quando infante.

E o brônzeo mel, que os favos edulcora,
Celeste dom, nectar hybleo prestante.
Liba tambem, com parcimônia embora. 

Das hortas suburbanas bem acolhe
Os legumes viçosos, já sem flores,
E a tenra couve: com esmero colha
Os fructos sazonados – os primores
De um anno fértil, e primeiro escolhe
Rubras, lindas maçans para as dispores
Em açafates próprios sobre a mesa,
Pois lhe dão grato olor e gentileza.

Venha afinal o liquido excellente 
Extrahido das bagas que te enviam
Moka feraz e as plagas do Oriente.

Goles parcos teus labios deliciam
Desse escuro licor, e brandamente
O trabalho do estomago auxiliam.

Se, sobrio, taes conselhos observares,
Velhice terás forte e sem pesares.        
 
“Encíclicas Religiosas”, de 20 de agosto de 1903.Sou um parágrafo. Clique aqui para adicionar e editar seu próprio texto. É fácil.

“Encíclicas Religiosas”, de 20 de agosto de 1903.
 

Réu confesso: ao final, após publicada, anotei algumas mudanças em meu famigerado Bloco de Anotações. Desde já, peç o desculpa ao eventual descendente que tenta decifrar meus manuscritos, verdadeiros rabiscos com ‘letra de médico’, como são conhecidas as receitas dos doutores. 

Logo no começo, me peguei na dúvida sobre a impressão borrada: 
‘Para poder fruir longa existência / Alheia a enfermidades, ....’. 
Será que escrevi ‘vigorosa’?
Deixo estar.

Logo na sequencia proponho uma troca:
‘De gula verberando o império do mundo’ trocaria por ‘Verberando de gula o império do mundo’. 

No meio, está publicado: 
‘Em açafates próprios sobre a mesa, / Pois lhe dão grato olor e gentileza.’. 
Pensei em trocar por ‘De grato bem-estar sob a influencia...’. 

No final, líquido e finalmente, se lê: 
‘Se, sobrio, taes conselhos observares...’.
Hoje, eu traduziria por: 
‘Se taes conselhos, sobrio, observares...’. 

A conclusão do Papa Leão XIII é perfurante: 
‘Velhice terás forte e sem pesares.’

Ficam-os-ditos-pelo-não-ditos, se me permitires.  

Sábio Papa Leão XIII – sobre quem lhe convido para conhecer um pouco mais a seguir.   Fabricius Rufus era seu conterrâneo romano e mereceu uma saudável e nobre ‘alimentação cristã’. 

O pontífice moderno, talvez o primeiro nessa seara, era expert em latim e entretinha-se com passatempos literários. Leão XIII indica como colocar a mesa, as bebidas e as guloseimas. Meu contemporâneo Eça, conterrâneo de meu pai, descreveu que era uma ver dadeira ‘encíclica poética sobre a alimentação cristã’. Eça foi além: comparava a carta papal com as atitudes de vários santos e santas da Igreja Católica que, para alcançar a santidade, teriam vivido diversas abdicações, dificuldades e renúncias. Tratou disso em alguns livros. 

Mas isso fica para a sua pesquisa, pois aqui me entretenho sobre a minha própria versão, já que o tema me intriga e interessa, ávido que fui das formigas saúvas paulistas, que comíamos com farinha e farofas, e dos acarajés bahianos, com vatapá,  que me desafiei a comer em diferentes tabuleiros. 

Em casa, com Carolina, o cuidado com a alimentação sempre nos pareceu uma hóstia, pela leveza, mas com sabor. 

Como as sopas e os consomées de todos os dias...



DEGRAU CULINÁRIA
Nunca fui da cozinha. Já o disse e repito. Fogões a lenha me chamuscavam. 

No entanto, contudo, todavia, adaptei-me em diferentes momentos da vida. Fosse no seminário de Salvador, fosse na república de São Paulo.  

Mais um capítulo em que Carolina se tornou meu anjo da guarda. Calu trazia a tradição do Recôncavo. Eu, do sertão. Comandava com maestria a cozinha cheia de mucamas, com diferentes etnias e elementos. Carregava consigo cadernos com menús e receitas, informações e descrições para o preparo dos alimentos doces e salgados – e com forte presença da culinária francesa. 

Saúva. Saudável. Comi muito. Foi nas ruas de São Paulo. 

As quitandeiras tiravam as asas, cortavam as pernas, ferviam no óleo quente e serviam com farinha e farofa. A comida surgiu e sobreviveu no Vale do Paraíba que, infelizmente, nunca consegui visitar. 

No tabuleiro da bahiana eram outras frituras.

Digo mais, sigo além. Os livros de receita deveriam ser publicados como as obras de medicina, direito e engenharia. Refletem a época em que vivemos. São repositórios de saberes de diversificados grupos sociais. Ingredientes fundamentais. 

Os indígenas por um lado e os africanos por outro criaram o sistema alimentar da Bahia. Caso das sobremesas e do preparo de licores. Arte culinária. As iguarias portuguesas se tranformaram. A cozinha de elite era afrancesada e internacionalizada.  

Porta de entrada. 

Eu observava os hábitos à mesa de grupos populares em contraste com as abundâncias das elites com fetiche pela cozinha internacional – e menú escrito em francês. Um hábito que atravessou do período em que nasci, meados do século 19, e a primeira metade do século 20. 

A transplantação de vários produtos apropriava o que a natureza oferecia, assim como a tecnologia e gosto das populações indígenas. Sementes e raízes trazidas da África foram rapidamente absorvidas e viraram uma fartura: inhame, quiabo, feijão-fradinho e arroz-vermelho. 

Reza a lenda, mais uma nesse livro sobre minha Segunda Vida, que as escravizadas traziam grãos e sementes escondidos nos cabelos. Com azeite de dendê, pimentas e milhos, viraram um manjar dos deuses – sem medo de trocadilho.  

Toques de fé e religião foram adotados pela culinária bahiana. Comida de santo, alimento dos terreiros. Haveria uma culinária africana na Bahia? Seria uma alimentação nagô? Os quitutes e preparos afro-baianos do povo-de-santo estão lá e, imagino, devem perdurar por séculos – mesmo com toques europeus. 

Haverei de ver, apesar de morto que estou. 

São pratos de ladinos, crioulos e mestiços, com toques entre a cozinha do sertão, do Recôncavo e da capital. Tudo isso, apesar do preconceito dos soteropolitanos com os produtos do sertão, tidos e havidos como de gente sem recursos, culinária sem nobreza. 

Como se dizia, coisa de ‘Tabaréu’, apelido depreciativo para quem vem do interior da Bahia. Historiografia é isso. É o que sempre defendi diante do Instituto Geográfico e Hist&oac ute;rico da Bahia. São sabores, cores e cheiros. Como o calor, o suor e o talento dos trabalhadores braçais. Influências alimentares, insumos e técnicas de preparo. 

Feito Maniçoba. 
Precisa de muitas horas para não matar quem a ingere. Como algum tipo de amizade, pode ser venenosa. 
Depois das nossas viagens de vapor para Cachoeira-São Felix, só falta pedir benção para esta culinária. 
Receita longa, mas simples. Resta aqui minha própria e pequena ‘Epístola’, Papa que não sou: 
Lavar as folhas de maniçoba em água corrente.
Usar peneira para retirar o sumo verde.
Colocar em panela grande com água.
Aferventar.
Escorrer.
Acrescentar ingredientes com água nova.
Cozinhar por cinco – ou mais – horas.

Pode ser uma metáfora da Justiça. Fica a seu critério. 
 

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