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VIAGEM PARA SÃO PAULO

“Bem vindos a bordo! A minha viagem interna termina no Seminário e a externa começa no Porto de Salvador. Em vez de Roma, as velas seguiram para Santos. E os trilhos, para São Paulo. Com apenas 22 anos, levantei âncora, emancipei-me da família e fui ajudar a criar a Emancipadora. Deveria ter descrito em algum Diário. Uma aventura como as dos melhores livros…”

FEBRE

O calor do corpo.

O calor da idade.

O calor da febre.

O calor da cidade.

Como se visse o fantasma de Banquo, que tanto atormentava Macbeth, sim, tive visões em minha chegada a São Paulo.

Desacostumado com o frio e mal preparado com meu vestuário bahiano, enfrentei as ventanias no navio que navegava para Santos, as ventanias no trem que subia a Serra de Cubatão e as ventanias pelas ruas de pedra do planalto paulista.

Na minha República de Estudantes, nome curioso para quem vivia no Império, apelei para pedaços de pano a fim de lacrar as janelas.

Não poderia me dar ao luxo de consultar um médico.

Recordava todas as informações de saúde que me foram dadas na infância e, principalmente, durante minha estada no Seminário Menor de Santa Tereza.

DEGRAU ANHANGABAÚ

Gosto da palavra Anhangabaú. Aprecio fala-la e ouvi-la. Até descobrir que em Tupi significa rio ou água do mau espírito. Culpa dos bandeirantes? Memórias. Segundo o ótimo Teodoro Sampaio, grande engenheiro, Anhangabaú pode ser traduzido como Rio dos Malefícios. Ou Rio do Diabo. Ou Águas assombradas. A denominação vem de Anhangá = mau espírito + y = rio.

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PLANALTO E A 'CIDADE DE CIDADÃOS'

A cidade que viria ser apelidada como ‘da garoa’ tinha um jeito desajeitado de ser. Sem influência francesa ou italiana ou mesmo portuguesa. Apenas sendo o que era e é.

 

Uma ‘cidade de cidadãos’, como um dia Gilberto Freyre anunciou, ao contrário de ‘cidades de cortesãos’, como as outras capitais brasileiras.

 

A garoa, fina ou grossa, é um fenômeno que sempre me encantou. Como acontece?

 

A chuva se concretiza a partir da temperatura da água. Se aquecida, vira vapor e sobe. Se resfriada, volta ao chão. Gosto de observar o aquecimento da água no fogão, especialmente se for à lenha. Aos poucos, o vapor sobe. Fumaça saudável. Em contato com superfícies frias como telhado ou parede, volta a virar líquido. É o que acontece com a poça d’água debaixo da luz do Sol. Vai ajudar a formar nuvens. Podemos dizer que a poça volta em forma de chuva.

 

Analogia com a nossa vida, acrescentaria eu. Fenômenos. Hipóteses. Teorias.

 

Antes, um pouco de história.

Não sou supersticioso. Não creio em mal olhado. Não sou de temer almas. Hora dessas volto a falar sobre isso, já que vivi a maior parte da minha vida cercado por variadas religiões.

 

Afinal, sou da Bahia.

Ah, Salvador...

 

O TREM

Um historiador descreveu que São Paulo deixava de ser ‘burgo de estudantes’ para transformar-se em ‘metrópole do café’.

O trem Jundiaí-Santos cortava o Brás e a Móoca.

A ‘Ingleza’, apelido da São Paulo Railway, criava ramificações como teia de aranha. Estava ali o dedo do Barão de Mauá, o batalhador Irineu Evangelista de Souza,que convenceu o Império de que poderia ser privada. Com engenharia de ingleses, foi fundada em 1867 – quando eu tinha apenas 11 anos –, com tecnologia avançada em 4 declives de 8% para desafiar a Serra do Mar e com trechos puxados por cabos de aço.   

Já a ‘Paulista’ ia até Campinas. Seguida pela ‘Ituana’, pela ‘Mogiana’ e pela ‘ Sorocabana’.

É uma linha de trem que aprecio em um belíssimo óleo sobre tela de H. Manzo, de 1870.

Descrevo.

A Maria Fumaça está no canto direito inferior da pintura. O Largo do Carmo separa o organizado burgo de um pequeno monte – onde está um casal com dois filhos e por onde o pintor lança seu olhar.

Ela tem um vestido branco longo e usa sombrinha contra o sol.

Ele está de paletó escuro e calça branca, com chapéu e binóculo nas mãos.

As crianças, comportadas, também usam paletós.

À esquerda, o Convento do Carmo. À direita, a Igreja de São Bento. Ao centro, a Igreja da Sé. Grandes quintais mostram as plantações urbanas. No Tamanduateí, as águas que um dia me banhei.

Em 1877, um ano antes de minha chegada, a Estrada de Ferro do Norte ligou paulistanos com fluminenses e cariocas. Pena que perdi a chance de conhecer o Rio. A outra ligação fundamental foi o telégrafo, a grande revolução da tecnologia e da comunicação. 

Bonde de tração animal. Iluminação pública a gás.

A primeira fábrica produzia tecido, a exemplo da Revolução Industrial inglesa.

Comércio. Bancos. Escritórios de comissários. Grandes e pequenas firmas comerciais. Lojas de artigos variados.    

A água do café borbulhava na chaleira. Eu, saindo da adolescência, já vislumbrava um novo mercado de trabalho.

A criação das faculdades em Recife e São Paulo gestou uma quantidade enorme de novos alunos – e que a incipiente burocracia não dava conta de empregar.

O diploma de bacharel passou a servir para a economia crescente, urbanizada rapidamente, com aumento de litígios.

Abrir uma banca de advogado na cidade de nascimento virou a solução. Com o consequente surgimento de associações de profissionais de direito. Caso paulista do IASP, de 1874. A Bahia havia de esperar mais um pouco: 15 de junho de 1897, com o IAB.

Na época, o Brasil oferecia possibilidades à imigração européia. Em bairros novos e arejados, se descortinavam ruas bem traçadas e construções modernas, de requinte e bom gosto. A província prosperava, graças aos negócios do café.

Parte dessa elite lutava pelo fim da escravidão.

Na alta do café, metade da população do entorno de Campinas era escravizada. Trabalhava 18 horas por dia. Os maus-tratos eram no tronco do Largo do Pelourinho, nome consagrado em Salvador.

 

Chibatadas.

 

Campinas ficou famosa pela crueldade, inclusive por uma cantiga anônima:

 

Rio de Janeiro é Corte

São Paulo é capitá

Campinas é purgatório

onde o nego vai pená.

Por outro lado, abolicionistas compravam fazendas para libertar os escravizados. Ou alforriavam escravos e ofereciam salários. Caso do Visconde de Indaiatuba, que libertou 100 negros antes da abolição. E Barão Geraldo. E outros.

Foi com orgulho compartilhado que ouvi dizer que o compositor Carlos Gomes deu um concerto no Teatro São Carlos de Campinas para a elite rural. A renda foi revertida para libertar escravizados. Afinal, as fazendas de cana, algodão e café trouxeram fortunas associadas com desgraça, dor, estupro e sangue.

 

Tragédia com T maiúsculo. Carlos Gomes tinha suas razões.

CARLOS GOMES

E pelas razões do músico, a ele dediquei...Perdão pela falta de data!

 

APOTHEOSE

Da abóboda ao mágico fulgôr,

Eu o Tropico espadana, ao gesto omnipotente,

Clareia-se em altar soberbo, resplendente

Como as aureas manhans, aos beijos do Equador

 

Um grupo symboliza o premio do Talento:

A Patria que contempla, e em extasi sorri

À Deusa sem rival, que canta o Guarany

Em doces vibrações do majestoso acento;

 

E junto à Patria, e à Arte, a Gloria  susutentando                            

Auriflamma gentil, em cujo motte luz

A fama de immortaes;  de brilhos scintilhado,

 

De Verdi , Mayebeer e Mozart entre os nomes,

Um nome lê-se grande e simples que traduz

A glória do Brasil: Antonio Carlos Gomes!

 

Poema publicado no jornal Aza Negra, Recife. 

Typographia do Aza Negra – Rua da Ponte Velha.

Filinto Bastos

Carlos Gomes em seu leito de morte na cidade de Belém

THE UNITED STATES OF SÃO PAULO

O exemplo vinha dos estudantes. Como escreveu um estrangeiro francês:

– S. Paulo possède l'une des deux Facultés de Droit de l´Empire, sans parler de ses 80 écoles publiques primaires, de son cours secondaire, de son séminaire episcopal superbement amenagé pour 400 élèves, de son lycée des arts et métiers, de son école normaíe, etc. Cest un titre fort estime que celui de Bacharel em Direito forme à S. Paulo. Sans vouloir entrer ici dans aucune discussion à ce sujet, il faut bien constater que les Brésiliens vantent Ia profondeur des études juridiques qu'on fait à cette Faculté, et qu'ils les estiment bien supérieures à l´enseignement qui est distribué par nos Facultés similaires de France. Je crois que cet orgueil est justifié.

São Paulo, terra de ricos fazendeiros e proprietários, exportava seus filhos para passar férias, tratar da saúde em estações de água ou fazer compras nos luxuosos magazines, antiquários e livreiros parisienses. De lá, voltavam esbanjando ‘cultura’, citando Molière, Balzac e Victor Hugo. Circular a riqueza fazia parte da colonização.

Formava-se o ‘The United States of Brazil’.

Soube que no começo do século 20, a cidade estava pavimentada e iluminada, limpa, com serviços de ‘tramways’ para todos os bairros, com livrarias, museus, escolas, padarias, mercados, bibliotecas e novos jornais.

Além de lojas, é lógico. Lembro de admirar, pelas vitrines, as lindas caixas de madeira com talheres de mesa. Remetem-me à minha casa de infância, com um conjunto de prata que meu pai trouxe de Portugal.

A invenção do garfo, faca e colher é uma das mais importantes da história, pouca gente dá bola. Adotar talheres individuais à mesa, com regras para usá-las, faz parte da nossa educação, tão importante como a caligrafia. Dizem historiadores que tudo começou no final da Idade Média. Embora só tenha se popularizado para todas as camadas da população quando eu, modesto cidadão do sertão, já tinha 44 anos.

Chegava o novo século. A Bahia também tentava se modernizar. 

Se já falei do Lacerda, vale dizer que os novos edifícios ganharam uma tecnologia instigante: o Elevador. Aqui pelo Brasil, a invenção do norte-americano Otis, de 1853, começou a ser fabricada em 1918. Um cabineiro girava uma manivela e lá iam os passageiros, para cima e para baixo. Com portas pantográficas. Lindo movimento.

 

Como sou fanático por degraus – você já deve ter reparado nesse livro pós mortem que ora lê, segui subindo pelas escadas. Até me parece um ritual, que respeito.

 

Muitas vezes, nos meus momentos de reflexão, faço a analogia entre uma missa e um julgamento. Entre uma Igreja e um Fórum. Há toda uma similaridade.

 

O padre entra, todos ficam de pé. Mesmo caso de um juiz. Há liturgias de leituras. Há regras de pronunciamentos. Há sermões.

 

Como cristão com muita fé, pergunto-me se é correto ter a imagem de Cristo nos ambientes públicos, inclusive jurídicos. Principalmente, em delegacias, ministérios e empresas estatais.

 

Há que se manter o distanciamento com respeito para outros credos e religiões. Afinal, Jesus Cristo não precisa se envolver em julgamentos ou medidas políticas.

Deve ser tão cego quanto a Justiça, embora possa dar uma ajuda espiritual.

 

MINHA INSPIRAÇÃO

Sim, de tanto ler poesia, só me restava escrever. Antecipo, pois, o que escrevi em São Paulo em um frio mês de julho. 

HODIERNA MUSA

Ainda não há muito do pallido luar,

E até dos lampeões a baça claridade,

Um bardo desferia, ardente, a suspirar

Canções de commover a sua divindade

 

Nenhuma linda flôr, ou rutilante estrella,

Podia comparar-se ao mago Seraphim.

E o vate languoroso à ingrata Armia bela

Pedia que escutasse o triste bandolim.

 

O Trovador passava em doces illusões,

Alheio à pura voz da Deusa do Futuro,

Cantando molemente, ao ar, ou nos salões,

Estrophes de namoro, em brando tom, seguro:

 

“Nos céus tudo é ventura...a terra é um paraíso ...

A brisa leve encrespa as ondas lá no mar...

Nos prados corre manso um ribeirinho liso...

E o céu, e a terra, e a lynpha e a brisa diz: Amar! “

 

Seios em comoção tremem àquella voz.

E o piegas sentimento abala as nevralgias.

Mais tarde -, nem alvo pó de arroz  nem carinho

Consegue rever a flôr de poucos dias! ...

 

A poesia então baniu do sanctuário

Os ímpios vendilhões de estrofes sem valor:

E, em vez de flôr, só estrella, apenas ---------

Que leva ao Pantheon  a senda do labor

 

Da phantasia ao reino era chegado o fim!

A turba se levanta para receber a Déa.

Que espalha pelo Séc’lo  ardente Cherubim,

O verbo do trabalho, a luz da Nova Idéa.

Reune em toda a parte os ovos pregoeiros.

Que vão, por sua vez, na terra apostolar...

Eil-os a progredir - eternos viajeiros –

O sol no firmamento – o amor, a paz no lar -!

 

E a fouce derribou extensos mattagaes.

O túnel atravessa, immenso, o trem de ferro.

O fumo sobe ao ceu, em densas aspiraes,

- Incenso que  planície offerta ao alto cerro!

 

O ferro na bigorna amolga-se vermelho.

O escopro vae cortando a rija carne ao pão.

O marmor, em pedaço, arqueia-se em joelho.

O purpureo rubim sae do cascalho mão.

 

Levanta-se a mulher da Nova Idéa ao trem,

A infância tem o templo, a que bater – a nova escola;

A juventude a tenda ou o grande Phartenon;

Os velhos têm o lar que os males seus consóla.

 

O ergast’lo se ilumina, e alenta-se o forçado!

A messalina treme e córa o lupanar!

Occulta-se o ladrão às scenas do passado,

Aonde a Grande Deusa immerge santo olhar!

 

Mas, inda assim, no mundo há muito o que fazer!

A terra não mudou inteiramente a face.

A terra e a hypocrisia estão a combater,

Em nome da Razão, à voz de Lovelace

 

Eu te bemdigo oh! forte! oh! Valida heroína,

Que dás a santa lei, que mandou progredir!

A escola, a tenda, o livro, o escopro – eis a divina

{+}                que insculpiste ao templo do Porvir!

 

E se te bemdigo, sim, oh! Rutilo Idéa!

Que desventuramente a geração moderna!

Aponta ao mundo inteiro o límpido ----------

Sublime, esplendorosa, oh! Musa Hodierna!

 

Mas não se dobre a luz e  ---------

A noite vai da terra, o dia vem dos céus.
A escola civilisa, e a tenda, humanidade  

Quando ellas têm por mestre – o Autor Supremo Deus.

 

S.Paulo, 27 de Julho de 1879.

Sciencias &Lettras

F.B.

Enigma para você: quem terá sido minha musa moderna da época?

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