EU NOS JORNAIS DO ADEUS
ANÚNCIOS FUNEBRES
Quem terá redigido este comunicado publicado já no dia seguinte?
Laura? Margarida? Hercilia? João? José? Calu?
jornal Imparcial
Bahia, 9 de fevereiro de 1939
FILINTO JUSTINIANO FERREIRA BASTOS
CAROLINA FERREIRA ROCHA BASTOS E FILHAS, JOÃO ROCHA FERREIRA BASTOS E FAMILIA, JOSÉ ROCHA FERREIRA BASTOS E FAMILIA, VILLEBALDO MONTENEGRO E SENHORA, ELVIRA BASTOS DA SILVA MOREIRA E FILHO, RODOLPHO GOMES DA SILVA (AUSENTE) E FILHOS, JORGE BASTOS LEAL E IRMÃS, VIRGINIA DE OLIVEIRA E FILHAS (AUSENTES), VIUVA ANTONIO BORJA E FAMILIA, PIRAJÁ DA SILVA (AUSENTE) E FAMILIA, NUNO DA SILVA ROCHA E FAMILIA, VIUVA JOSÉ FELICIANO ROCHA E FAMILIA, E OCTAVIO PERES E FAMILIA PARTICIPAM QUE FOI DEUS SERVIDO LEVAR PARA SUA GLORIA SEU EXTREMOSO ESPOSO, PAE, AVÔ, CUNHADO, SOGRO, TIO E PARENTE FILINTO JUSTINIANO FERREIRA BASTOS, AO TEMPO EM QUE CONVIDAM PARA O ENTERRAMENTO A EFFECTUAR-SE, HOJE, ÀS 16 HORAS, NO CEMITERIO DO CAMPO SANTO.
BAHIA, 9 DE FEVEREIRO DE 1939.
N. 7578
DEZ. FILINTO JUSTINIANO FERREIRA BASTOS
Carolina Rocha Ferreira Bastos e filhos, João Rocha Ferreira Bastos e familia, José Rocha Ferreira Bastos e familia, Elvira Bastos da Silva Moreira e filho, Villobaldo Montenegro e senhora, Rodolpho Gomes da Silva, Jorge Bastos Leal e irmãs agradecem de coração a quantos lhes manifestaram pesar e solidariedade pelo passamento do seu idolatrado esposo, pae, sogro e avô FILINTO JUSTINIANO FERREIRA BASTOS, a todos rogando o caridoso obsequio de assistir as missas que, em suffragio da alma do saudoso extincto, serão celebradas na egreja do Convento dos Religiosos Franciscanos, às 8 horas de quinta-feira, 9 do corrente.
N.523-3
Professor desembargador Filinto Bastos
O director interino, e os corpos docente, discente e adminstrativo da Faculdade de Direito da Bahia, cumprem o doloroso dever de communicar o fallecimento de seu venerando Director e grande Mestre Prof. Des. Filinto Justiniano Ferreira Bastos, cujo feretro sairá da casa de residencia às 15 horas para a Faculdade de Direito, e dahi às 16 horas, após sessão da Congregação, para o cemiterio do Campo Santo.
DEZ. FILINTO BASTOS
A Sociedade de S. Vicente de Paulo convida os seus confrades para as missas em sufragio da alma do grande vicentino Felinto Bastos manda celebrar, na capella de Santo Antonio da Mouraria, sexta-feira, 10 do corrente, às 7 ½ da manhã.
N. 546
OBITUÁRIOS
A Tarde, 9 de fevereiro de 1939.
Como magistrado, morreu. Póde-se dizer que, magistrado, nascera.
XXXXX
E lá fui eu para as páginas dos jornais. Tudo indica que virei ‘nota’ ou reportagem em várias partes do Brasil. Agradeço de coração. Compartilho com vocês. Desde já, adoraria descobrir o nome do estudante do Grêmio que me saudou. Ficou anônimo e já deve ter partido, como eu.
REQUIEM AETERNAM
Falecido estou, me dou ao direito de antecipar a publicação da minha morte por um prestigioso periódico soteropolitano. Acho esclarecedora para você me compreender. Do FIM ao COMEÇO, feito Memórias Póstumas, sabe?
Danado do jornalista. Foi ágil e direto. Na verdade, tenho certeza que meu obituário já estava prontinho, prontinho, prontinho, só esperando meu passamento. Está certo. Pelo menos fizeram uma bela pesquisa.
Só erraram o meu nome, mais uma vez. FELINTO. Fazer o quê, não é?
Fiquei orgulhoso com a expressão em latim que usou para me descrever:
– Vir bônus dicendi peritus.
Como ele não traduziu, facilito para você.
– Homem de bem, perito na arte de falar.
Gratificus. Gratus. Inoblitus, digo eu.
Também usou algumas expressões pesadas: enterramento, funéreo, senectude. Está certo. Eu já estava bem velhinho como um bom bisavô. O impressionante é que faleci à noite e o jornal já saiu quentinho, pela manhã. Ainda bem que a família guardou um recorte.
Ganhei destaque de meia-página na página 2. Está certo.
A manchete do dia tratava de um possível sinal de paz Guerra Civil ‘Hespanhola’. Um cabograma de Paris informava:
– Informa-se nas fontes parlamentares que foram iniciadas negociações de paz na Hespanha, directas, entre as autoridades insurrectas e o general Miaja (...) ... dizem já ter o general Miaja iniciado as conversações com o general Franco.
Mundo em guerra – e eu partindo. Como se vê, gosto muito de jornais. Mas vou me concentrar na minha partida, que antecipo aqui, para você começar pelo fim da minha vida. No final do livro tem mais...
Com a devida vênia...
A TARDE
ANNO 27
Quinta-feira, 9 de fevereiro de 1939
CONSELHEIRO FELINTO BASTOS
A MORTE DO GRANDE MAGISTRADO – TRAÇOS BIOGRAPHICOS – HOMENAGENS – O ENTERRAMENTO
Faleceu esta noite, nesta capital, o conselheiro Felinto Justiniano Ferreira Bastos, membro aposentado do Tribunal de Appellação e director da Faculdade de Direito.
Morre aos 82 annos de idade.
Com o desapparecimento do conselheiro Felinto Bastos abre-se no quadros dos homens illustres da Bahia um claro, que não será facil preencher. Intelligencia, cultura, inteireza de caracter eram os traços essenciaes da sua individualidade que, por elles, se afirmou, desde a mocidade até a velhice. Si uma longa vida é difficil de bem preencher, tal privilegio coube ao conselheiro Felinto, a quem desde joven aquelles atributos situaram, entre os seus contemporaneos, como um homem de qualidades não communs. Entre a sua mocidade e a senectude, a mesma harmonia de sentimentos, as mesmas predilecções espirituaes, a mesma vocação intellectual. Começando os seus estudos no Seminario, onde chegou a concluir o curso theologico, dahi passou para o estudo de preparatorios fazendo todas as humanidades exigidas para o estudo de Direito. Foi em São Paulo, na tradicional faculdade, que era então um viveiro onde se emplumavam as mais formosas intelligencias do paiz, que fez os primeiros quatro annos do curso, terminando-o na egualmente reputada faculdade do Recife.
A capital pernambucana era então o Atheneu do norte do Brasil, quiçá de todo o paiz. Felinto Bastos chegou ao Recife quando ainda electrisava o seu ambiente a musa candoreira do nosso Castro Alves. Recife era o scenario aberto aos prélios da maior das aspirações sociaes do tempo. Poetas, escrtiptores, tribunos e jornalistas, professores e discipulos, a gemma intellectual da faculdade, nos comicios, na imprensa, nos saráos litterarios e nos balcões do Theatro Santa Izabel, engrossavam a caudal abolicionista. Os sentimentos profundamente christãos e a paixão da Justiça – que, em Felinto Bastos, foram a razão de ser da sua vida –, impelliram o acadêmico bahiano para as hostes anti-escravocratas, em que a figura magica de Joaquim Nabuco exercia seducção irresistivel. Felinto Bastos soube honrar os foraes da inteligência da sua província, pelos seus condiscípulos, a lucta que se travou entre ele e Martins Junior, este candidato dos estudantes nortistas, emquanto Felinto, açulado pelos bahianos e os enamorados do estro de Castro Alves, era coagido, por uns e outros, a vencer a modestia inflexivel, que era o traço essencial do seu caracter, para figurar como competidor do tribuno pernambucano nas disputas intellectuaes.
Diplomado em sciencias juridicas e sociaes, recolheu-se à terra natal, onde, após breve passagem pela advocacia, como companheiro de escriptorio do eminente jurisconsulto e orador Augusto de Freitas, fez-se magistrado.
Como magistrado, morreu. Póde-se dizer que, magistrado, nascera. O conhecimento universal do direito e a serenidade evangelica compunham, no conselheiro Felinto Bastos, um modelo de juiz. Nunca se lhe notou outra paixão, senão a da justiça. Ingressando na magistratura nos seus tempos aureos, e nella permanecendo até uma phase recente, em que os que amamos a justiça, a vimos, com tristeza e revolta, decahir do seu solio para se chafurdar nas mesquinhezas da politica partidaria. Felinto Bastos não se contaminou. Permaneceu incolume, como esses pontos culminantes, a cuja altitude não chegam as exhalações do pantano. Sabio e virtuoso, realizava o conceito do “vir bônus dicendi peritus”. É uma grande perda que sofrem a Bahia e a cultura do Brasil.
DADOS BIOGRAPHICOS DO
CONS. FELINTO BASTOS
Filho legitimo do negociante portuguez João Justiniano Ferreira Bastos e d. Maria Alvina de Oliveira Bastos, de uma família de lavradores da freguezia dos Humildes o cons. Felinto Justiniano Ferreira Bastos nasceu na Feira de Sant’Anna, a 11 de dezembro de 1856. Cursou as primeiras letras na escola do prof. Luperio Leobino Pitombo, e aos dez annos frequentou as aulas do Collegio Sant’Anna, do vigario Ovidio Alves de S. Boaventura. Matriculou-se, em 1870, no Seminario Menor, nesta capital, concluindo o curso teológico em 1875.
Em 1877 fez todos os preparatorios na Faculdade de Medicina desta cidade, matriculando-se na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1878, cursando nesta escola quatro annos, e seguindo em 1882 para o Recife, onde em 30 de outubro do mesmo anno, recebeu o gráo de bacharel.
Foi nomeado em 1883 Promotor Publico da comarca de Camisão e em 1884 Juiz Municipal e de Orphãos do termo de Tapera, com sede em Amargosa.
Em 30 de janeiro de 1890 foi nomeado Juiz de Direito da comarca de Caetité, sendo removido para a de Caravellas, e dahi para a de Amargosa. A 3 de agosto de 1892 foi nomeado juiz da 1ª entrancia e a 9 de dezembro de 1897, conselheiro do Tribunal de Appelação e Revista.
Como juiz desse alto tribunal, depois Superior Tribunal de Justiça, e agóra Côrte de Appelação, serviu, ininterruptamente, até 1934, quando se aposentou.
Em 1897 entrou para a Congregação da Faculdade de Direito, para leccionar Direito Civil, passando, logo depois, à cadeira do Direito Romano, que até ao presente occupava, tendo sido eleito diretor da Faculdade, cargo que ainda exercia.
Era membro fundador da Academia de Letras da Bahia, occupando a cadeira n.21, de que é titular o barão da Villa da Barra.
SEUS TRABALHOS
Na sua vasta producção, contam-se os seguintes trabalhos...
(Obs.: A reportagem lista livros e artigos publicados por mim)
A FAMILIA DO ILLUSTRE MORTO
O conselheiro Felinto Bastos era casado com d. Maria Carolina Bastos, de cuja feliz união deixa os seguintes filhos:
João Rocha Ferreira Bastos, ministro do Tribunal de Contas, dr. José Rocha Ferreira Bastos, sub Procurador Geral do Estado de Santa Catharina, sras. D. Maria Bastos Montenegro, e Elvira Bastos da Silva Moura e as senhorinhas Hercilia, Laura e Margarida Rocha Ferreira Bastos, alem de 15 netos, todos vivos.
AS HOMENAGENS À SUA MEMÓRIA
Como tributo de respeito e admiração ao dez. Filinto Bastos, a Faculdade de Direito, representada pela Congregação, pediu consentimento à familia do fallecido para transportar o corpo para o vestibulo daquela faculdade, de onde o féretro sahirá, as 16 horas, para o Cemiterio do Campo Santo.
No salão nobre do mesmo estabelecimento de ensino, realizar-se-á a sessão funebre da Congregação, sendo orador o prof. Jayme Junqueira Ayres.
– O Tribunal de Appellação comparecerá incorporado e depositará uma capella sobre o tumulo do conselheiro Felinto Bastos.
– Logo que teve sciencia do fallecimento do cons. Felinto Bastos, o sr. Interventor federal do Estado apresentou pêsames a família do extincto por intermédio do chefe da sua casa militar. S. ex. far-se-á representar no enterramento pelo sr. Secretario do Interior e Justiça e mandará depositar sobre o tumulo uma corôa de flores.
XXXXX
jornal CIDADE DO SALVADOR
Quinta-feira, 9 de fevereiro de 1939
Falleceu o des. Filinto Bastos
QUEM ERA O ILLUSTRE MORTO – VIDA E OBRAS – DESCENDENTES – O ENTERRAMENTO SERÁ ÀS 4 HORAS DE HOJE E O FERETRO SAMENTO SERÁ ÀS DE DIREITO
A noticia do fallecimento, às 10.30 da noite de hontem, do prof. dr. Filinto Bastos, ex-director da nossa Faculdade de Direito e membro, aposentado, da Côrte de Appellação, consternou a todos os que tiveram a ventura de conhecê-lo, durante os seus 82 annos de vida.
Foi elle a maior vocação de professor já surgida entre nós, nos ultimos annos. Ensinou Direito Civil e Direito Romano às gerações que pela Faculdade de Direito passaram, entre 1897 e 1938. Podia lecionar todas as cadeiras do curso de bacharel – e leccionava-as , quando necessario.Em quarenta annos de magisterio, foi muitas vezes escolhido padrinho das turmas que deixavam, cada ano, a Faculdade. Escreveu compendios, ainda hoje uteis, sobre varias disciplinas do curso, levando sua curiosidade scientifica a terrenos entretanto, muito distantes das suas actividades normaes; o Direito Administrativo, o Penal, o Constitucional, o Internacional etc, mereceram-lhe cuidados especiaes. Por muitos annos, os bachareis da Bahia estudaram pelos seus compendios, onde o pensador e o escriptor se combinam num milagre de clareza e de methodo. Toda a sua vida, elle foi um exemplo de dedicação à obra da educação: estudou, escreveu, ensinou – inclusive com o exemplo. Tendo sahido de um Seminario, já concluido o curso, o des. Filinto Bastos trouxe para a vida, uma segurança de attitude que lhe iria marcar o caminho luminoso. Juiz integro, professor à altura da profissão, homem de honra que sempre soube cumprir à risca os seus deveres, era, ao mesmo tempo, um homem de coração simples e bom. Dahi a estima e o respeito que sempre cercaram essa figura estellar no conceito das varias gerações que o encontraram, já velhinho, a cofiar o bigode, ensinando com a sua proverbial proficiencia.
Morto, agora já aos 82 annos, uma lacuna impreenchivel se faz na magistratura e no magisterio bahianos, que elle soube sempre honrar, pondo nisso todo o seu coração e a sua intelligencia.
LINHAS BIOGRAFICAS DO DES. FILINTO BASTOS
(não é necessário repeti-las)
BIBLIOGRAFIA
(idem)
OS DESCENDENTES DO EXTINCTO
O des. Felinto Bastos deixa viuva d. Carolina da Rocha Ferreira Bastos e os seguinte filhos e netos:
Dr. João Rocha Ferreira Bastos, ministro do Tribunal de Contas, casado com d. Marietta Solano Ferreira Bastos, da qual teve os seguintes filhos: Maria Amelia, Filinto Bastos Netto e José;
Dr. José Rocha Ferreira Bastos, Sub-Procurador geral do Estado de Santa Catharina, casado com d. Maria de Lourdes Caldeira Bastos, que tem os seguintes filhos: Maria José, Maria Stella, Maria Thereza, Maria de Lourdes, Filinto José e Fernando José;
D. Elvira Bastos da Silva Moreira, viuva do sr. Fernando da Silva Masina, que tem um filho de nome Manoel;
D. Maria Bastos Montenegro, casada com o sr. Vilobaldo Montenegro, funccionario do Tribunal de Appellação;
E senhoritas Hercilia, Laura e Margarida.
Também deixa alguns netos que são:
O bacharelando Jorge Bastos Leal, Heloisa e Cora Bastos Leal;
E Luiz Fernandes e Carolina Maria, filhos do dr.Rodolpho Gomes da Silva.
NA RESIDENCIA DO MORTO
A residencia do dr. Filinto Bastos está cheia de altas figuras de todas as classes sociaes e associações religiosas, das quaes fazia parte como ardoroso catholico, representantes das autoridades e sociedade.
O ENTERRAMENTO SAHIRÁ DA FACULDADE DE DIREITO
Às 15 horas de hoje, o feretro será transportado para a Faculdade de Direito, onde serão prestadas homenagens posthumas ao desembargador Filinto Bastos, havendo uma sessão da Congregação. Falarão oradores representando os corpos discente e docente. Às 16 horas, sahirá dali o cortejo funebre.
XXXXX
jornal DIARIO DE NOTICIAS
Quinta-feira, 9 de fevereiro de 1939
Era, sobretudo, um justo
A Bahia perdeu, hontem, uma das suas mais venerandas figuras
Profundamente consternados, os circulos juridicos e a sociedade bahiana tomaram conhecimento, hontem, do fallecimento do Dezembargador Filinto Justiniano Ferreira Bastos, membro aposentado do Tribunal de Appellação do Estado, luminar das letras juridicas nacionaes e director da Faculdade de Direito da Bahia.
Nome dos mais eminentes e acatados de nossa alta magistratura, a figura veneranda de Filinto Bastos, que desapparece aos 82 annos de idade, pelas suas virtudes aprimoradas, era um vulto inconfundivel que honrava a nossa cultura e uma das lidimas expressões do pensamento juridico nacional. Professor dos mais proficientes, o seu cabedal scientifico não conhecia especialidade do Direito que elle não terçasse com raro brilhantismo. Leccionou todas as cadeiras da nossa Faculdade, onde era, entretanto cathedratico de Direito Romano. Como educador, dessa personalidade que deixa em sua passagem pela nossa Escola Superior, um sulco luminoso e um nome aureolado pela veneração e pelo respeito da mocidade academica, nada mais se póde dizer senão que, ao estimulo de sua palavra eloquente, simples e bondosa, dezenas de gerações se formaram para os embates da vida profissional. Era o mais velho professor da Escola em cuja congregação exercia, entre seus pares, a fascinação de um respeito, quase mystico, àquella existencia, voltada, toda ella, ao trabalho ininterrupto e ao estudo. Juiz, educador e publicista, entre essas actividades dividiu o seu labor, dando a todas ellas, o brilho invulgar de uma cultura robusta, a serenidade e a isenção de um caracter nobilissimo e o profundo conhecimento de todos os ramos do Direito. Em nenhuma delas foi maior, porque era em todas grande, justo e sabio.
O ilustre extincto que era natural de Feira de Sant’Anna, neste Estado, deixa viuva a exma. sra. d. Carolina Rocha Ferreira Bastos e os seguintes filhos: dr. João Rocha Ferreira Bastos, ex-promotor publico; dr. José Rocha Ferreira Bastos, sub-procurador de Estado, em Santa Catharina; viuva Elvira Bastos da Silva Moreira; d. Maria Bastos Montenegro, casada com o sr. Villobaldo Montenegro, funcionario do Estado; e senhorinhas Laura, Margarida e Ercilia.
O enterramento terá logar às 16 horas de hoje no cemiterio do Campo Santo, saindo o feretro da residencia da illustre familia enlutada, à av. Joanna Angelica, n. 110.
XXXXX
O jornalista quase acertou.
Meu corpo foi ‘sequestrado’ pelos estudantes e professores da Faculdade de Direito.
XXXXX
jornal CIDADE DO SALVADOR
BAHIA, 10 de fevereiro de 1939
Enterrou-se hontem
O DEZ. FILINTO BASTOS
Tocante a homenagem da Escola de Direito ao seu director
Realizou-se hontem, o enterramento do dez. Filinto Justiniano Ferreira Bastos, director da Faculdade de Direito e elemento de destaque nos meios cultaraes e juridicos do paiz.
NA FACULDADE
Como tributo de respeito e admiração ao dez. Filinto Bastos, a Faculdade de Direito, representada pela Congregação, pediu consentimento à familia do fallecido para transportar o corpo para o salão nobre daquella Faculdade, no que foi apoiada. Lá realizaram-se assim as ultimas cerimonias prestadas pela escola, tendo falado em nome da Congregação o prof. dr. Jayme Junqueira Ayres, que em sentido discurso exaltou os sentimentos do morto e disse palavras que exprimiam a saudade deixada por aquella perda.
Em seguida foi apresentada por um dos representantes do Centro Academico, uma “moção de pezar”, em seu nome e no dos alumnos da Faculdade, “moção” esta que disse o verdadeiro pezar que os alumnos da Faculdade soffreram com o despparecimento de um dos seus mais eminentes mestres.
O ENTERRAMENTO
O enterro saiu da Faculdade precisamente às 16,15 minutos, acompanhado por grande numero de alumnos, diversas comunidades religiosas, representantes do governo do Estado, altas autoridades e o Tribunal de Appellação da Bahia que compareceu incorporado.
No cemiterio do Campo Santo, falaram varios oradores, inclusive o representante da Ordem dos Advogados e o Provedor da Santa Casa de Misericordia, que levaram o ultimo adeus, daquellas sociedades, ao emerito juiz bahiano.
Tambem compareceram todos os funccionarios da justiça, da imprensa e de diversas associações.
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Como se vê, como se lê, fui levado, com autorização de Calu, para ser velado na Faculdade de Direito e enterrado no Campo Santo. Lá fiquei por um período, pois logo fui transladado para o ossário da Ordem 3ª.
XXXXX
jornal A TARDE
11 de fevereiro de 1939
DR. FELINTO BASTOS
A Direcção da Obra das Vocações Sacerdotaes da Arquidiocese da Bahia manda celebrar 2ª Feira 13 deste, às 9 horas, na Igreja do Seminario Santa Theresa uma missa solemne de “Requiem”, em suffragio da alma do Dr. Felinto Bastos, desde 1906 seu emerito Presidente, durante 32 annos.
Para assistir o acto, convida especialmente as pessoas que pertencem à Obra ou foram por ella auxiliadas. Àquellas que não puderem comparecer, pede uma prece pelo querido defunto e desde já a todas se confessa agradecida.
XXXXX
Quem diria. O Seminário onde um dia estudei. Quando sonhei seguir a vocação para Padre. O que compensei, de certa forma, em estimular novas vocações.
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(sem data, sem identificação de jornal)
O NOME DO DEZ. FILINTO BASTOS NUM COLLEGIO DESTA CAPITAL
A directoria da Liga Bahiana Contra o Analphabetismo, em sua ultima reunião, e por proposta do major Cosme de Farias, inseriu na acta dos seus trabalhos falando de sincero pezar pelo fallecimento do desembargador Felinto Bastos, resolvendo, tambem, dirigir uma petição ao Conselho de Educação e Cultura do Estado, para que o Collegio do Alto do Perú, no districto de Santo Antonio, nesta capital, dirigido pela professora Dulce Ferraro de Mello, seja denominado “Escola Felinto Bastos”, num edificante preito civico à memoria do exemplar magistrado notavel professor de Direito.
XXXXX
Fiquei muito feliz em ser lembrado pelos educadores. A batalha da alfabetização sempre me foi cara. E sempre foi barata para o Estado, que pouco investe. Felizmente, acertaram meu nome: FILINTO. E o J de Justiniano.
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jornal CIDADE DE SALVADOR
14 de fevereiro de 1939
Homenagens à memoria de Filinto Bastos
Prestadas pelo Conselho Penitenciario da Bahia
O Conselho Penitenciario da Bahia, em sua ultima sessão, resolveu prestar homenagens especiaes à memoria do dez. Filinto Bastos.
Assim é que hontem, uma commissão especial, representada pelos conselheiros Edgard Matta, Edison Tenorio e Nelson Sampaio esteve em visita à familia do saudoso mestre de Direito, tendo sido recebidos por toda a familia, inclusive pelo dr. José Bastos, que é, tambem, membro do Conselho Penitenciario de Santa Catharina.
O Conselho Penitenciario ainda deliberou communicar-se, por officio, com a Faculdade de Direito e com o Tribunal de Appellação, salientando a grande perda que soffreram o ensino e magistratura na Bahia com o passamento do dez. Filinto Bastos.
XXXXX
Acima.
Pelo visto, valeu o esforço pelo trabalho junto daqueles que cuidam das prisões. Como escrito em alguma parte desta minha Segunda Vida, não podemos deixar que as Penitenciárias se transformem em Escolas do Crime.
Abaixo.
Outra boa lembrança. Tentei, sempre, ser um anônimo em minhas doações financeiras ou de horas entregues à caridade.
As vocações são necessárias.
XXXXX
(jornal não-identificado – missa de 30º dia)
SUFFRAGIOS
CONS. FILINTO BASTOS
Realizaram-se às 8 horas da manhã de hoje na Igreja de São Francisco, officios religiosos pela passagem do trigesimo dia do fallecimento do venerando cons. Filinto Bastos.
Complementamente cheia a nave daquelle templo catholico de magistrados e advogados, autoridades, familias de nossa sociedade, representantes de associações civis e religiosas, foram rezadas missas em todos os altares, officiando no altar-mór S. Ex.Revdma_a D. Augusto Alvaro da Silva, Arcebiso Primaz.
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Por alma do desembargador Filinto Bastos, a Sociedade São Vicente de Paulo manda rezar amanhã, às 7 ½ do dia, na capella de Santo Antonio de Mouraria, missas, para as quaes estão sendo convidados todos os vicentinos.
XXXXX
jornal A TARDE
6 de abril de 1939
A “SOLEMNIDADE JUDICIARIA”
HOMENAGEM MUITO TOCANTE À MEMORIA DO PROF. FILINTO BASTOS
Damos a seguir o discurso do prof. Nestor Duarte, proferido na “Solemnidade Judiciaria”, em nome da classe dos Advogados. É uma peça bem lançada, concisa, eloquente e que mereceu calorosos applausos:
“Meus senhores:
Não seria logico, da logica moral de uma justiça, si esta primeira “Solenidade Judiciaria”, que sucede à morte de “Filinto Justiniano Ferreira Bastos”, não lhe homenageasse o nome e a memoria.
Tão interessante vulto ele foi nas letras e na magistratura bahianas, que as honrarias que lhe possamos tributar se dirigem tambem a uma porção do nosso patrimonio moral.
Não era só um Juiz, não era só um homem culto.
Era ambas as coisas, numa expressão bem relevante do nosso pensamento e de nossa feição cultural.
Desde cêdo ele representa isso em sua vida. Desde a Academia, si antes não quizermos vêr nas circunstancias do seu nascimento, na filiação e na propria condição economica da vida dos seus, outros tantos elementos a concorrerem para aquela expressão.
Mas, expressão ele o foi, sem que se dispuzesse a ser, nem viesse a tomar o ensejo ou a posição de “leader” e condutor. Não. Nelle o que é representativo constitue o fato mesmo de não exceder em alguma singularidade parcial, mas no revelar-se precisamente pelo conjunto de qualidades numa harmonia e numa tal complexidade de fatores que é a sua verdadeira singularidade mesma.
Vejamo-lo, por exemplo, nos aspecto mais constante de sua vida, a do Juiz. A Judiciaria segrega, exclue quasi sempre, absorve. Ele, entretanto, é juiz e humanista, humanista e professor universitario, convicto de uma filosofia, homem identificado numa corrente de pensamento numa teoria de vida que na ação se desdobra para encontrar maior fecundidade e consequencia.
Ao chegar a essa unidade de vida e inteligencia, que se quebra em tantos espiritos, não o fez em asperas lutas e conflitos chocantes, mas após a mais larga e complexa experiencia e contactos de acontecimentos, homem e pensamentos.
O pequeno sertanejo de Feira de Santana, que ele era, vae encontrar, logo na primeira emigração para os estudos, mundo de influencias dos mais ricos. Um seminario, a principio, a dura disciplina religiosa, a regularidade do pensamento sistematizado, dando curso a uma crença respeitavel. Em seguida, a Academia, ou melhor, duas Academias – a de São Paulo e Recife – que lhe restituem o debate febril, a multiplicidade dos acontecimentos de ritmos discordantes, a viva variedade dos homens e de sua convivencia. É a esse tempo que ele toma conhecimento das solicitações mais fecundas da vida. A sua época é uma das mais vivazes do Pais. Ele assiste a uma revolução espiritual e social. Romantismo e Abolição. Liberalismo e Republica.
Dos homens filtram-se na sensibilidade as mais educativas reminiscencias – Raimundo Correia, Martins Junior, Silva Jardim. O ambiente de São Paulo, durante 4 anos e o de Recife, no ultimo, o da formatura em bacharel em ciencias Juridicas e sociais, tinha fertilidade para qualquer vida e rumos os mais diversos para qualquer vocação. É nesses quadrantes batidos por tantas correntes, que ele ganha o equilibrio de toda a sua vida, a unidade espiritual do seu pensamento.
Um classico nas letras, um classico no direito, um classico no pensamento filosofico, tocado da sensibilidade liberal que lhe permitiu sempre a generosa capacidade de reação.
A fria judicatura que lhe refreava os impetos, já castigadas pela orientação conservadora de sua crença, do catolicismo filosofico, não mais lhe tolhia os impetos e os surtos outros da sensibilidade do professor e do mestre da mocidade. Esses contrastes, como bem salientou com humor comovido, um dos seus ilustres filhos, se retratavam fisicamente na fisionomia do juiz sineno, que amortece os excessos e os lampejos, e na do professor e orador, já vibrante e nervoso, a tentar mastigar o bigode que os dedos agitados repassam e machucam, no instante mesmo em que nele explodiam os vivos anseios de liberdade, simpatia humana e franca solidariedade pelas grandes causas e por seus combatidos seguidores.
Juiz dentro de homem tão rico de cultura e de contrastes em equilibrio constante, esse Justiniano, a que o sentido pandecista não impediu de conhecer todo o direito, nos seus varios ramos, ao lado da literatura propriamente de sensibilidade da poesia que ele amava e repassava no espirito para encher a conversa nas horas frequentes de verve tranquila, foi bem aquela expressão de nossa terra e de nossa gente, no que toda terra e toda gente se representam como conjunto de qualidades morais e culturais, de sensibilidade, inteligencia e tradição harmoniosas.
Ao lhe homenagearmos aqui a figura do Juiz, dentro dos propositos mesmos desta “Solenidade Judiciaria”, não seria possivel esquecer esses aspectos da biografia de seu pensamento e sua projeção moral.
É, porem, ao Juiz, cheio de tantos atributos e que enriquece, por sua vez, a galeria dos grandes juizes bahianos, que desejamos festejar a memoria neste momento.
Nós advogados temos o culto dos juizes. Nós os compreendemos e os julgamos melhor do que ninguem e antes que o mundo o faça. Estamos no degrau mais proximo dos altares em que a tradição classica colocou a sua missão, tão humana aliás .
Recolhemos, antes dos outros, a sua palavra, a sua decisão de justiça.
Si o romano fez do Juiz um sacerdote e por isso o revestiu daquela toga, nós somos os fieis mais constantes, mais vigilantes e possuidos de outras razões de conhecimento e de experiencia propria, para o julgar, condenando-o ou não.
A toga de Filinto Bastos pode ser mostrada aqui, com orgulho.
É o nosso julgamento”.
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Como se vê, como se lê, fui levado, com autorização de Calu, para ser velado na Faculdade de Direito e enterrado no Campo Santo. Lá fiquei por um período, pois logo fui transladado para o ossário da Ordem 3ª. Tudo indica que foi por questões econômicas. Como dito, deixei pouca herança. E morrer é caro.


















