MONT SERRAT

NOSSA CASA
Nós escolhemos credos e ideologias. Torcemos por times e esportistas. Optamos por quem amamos. Livre exercício da escolha. O contrário de cunhados, genros e agregados. Tive sorte com minha família.
Eu e Carolina dividimos tudo na vida.
Moramos em três lugares diferentes de Salvador. Nos bairros Saúde e Coqueiro da Piedade foram em casas alugadas. No Sobrado da Joana Angélica 110, certidão de propriedade.
Sei – mas não sei – o significado exato da palavra masoquista. Dor e risco fazem parte do receituário de quem lê livros de suspense e come pimenta. Ou ter filhos. São desejos e impulsos contraditórios. Faz parte de dar sentido para as coisas – inclusive para nossas vidas. É vazia sem desafio.
Já escrevi por aí. Tenho duas armas: a verbal da Justiça e a silenciosa da Religião.
Pensando bem, três: a mental da Literatura.
A ITAPAGIPE
As palavras, sempre elas – e repetirei – são as chaves das portas.
O nosso alfabeto tem 26 letras – cada uma é um símbolo que representa um som.
O ponto e vírgula marca uma pausa maior. Ponto e vírgula aqui.
Qual o meu antropônimo? Filinto.
É a palavra-chave para os nomes das pessoas.
Apesar de ‘sério’, divertia-me, no silencio do escritório, escrevendo bem humoradas poesias. Feito essa, abaixo, cuja data esqueci, assim como o local em que a escrevi.
Só o título me sobreveio:
SEM GRAÇA
Eil-os que vão os dois da freguesia
à matriz, aliar-se em casamento;
elle – o Manoel – um noivo de espaento
ella – a risonha e garrula Maria.
Era guapo o casal!: Quanta alegria
notava-se no povo! Mais de um cento
de rapazes e moças, n’um momento,
apinhou-se na egreja, que luzia.
Approxima-se o padre e à graciosa
noiva pergunta: “Casa por seu gosto?”
“Não!” responde Maria, vergonhosa.
O padre os vai deixar, mas, o embaraça
Maria que lhe diz – nublado o rosto:
—“venha casar os outros ‘seu’ sem graça”.
Gosto do jargão latino que proclama:
– Nullum crimen, nulla poena, sine lege.
Traduzo:
– Não há crime ou pena sem que lei anterior os defina como tal.
PATRIMÔNIOS
Crianças, eu vi. Moços, eu testemunhei. Velhos, não sei o que pode ter acontecido.
De lá de minha janela no número 50 da Ponta do Mont Serrat, acompanhei o crescimento de pequenas e médias indústrias na Península de Itapagipe. A região, pré-portugueses, era preenchida de tabas indígenas. Os Tupinambás. Povo aguerrido e com forte conhecimento sobre os movimentos das águas dos rios e dos mares. O nome diz tudo: Itapagipe é tupi. Significa ‘no rio do lugar da pedra’ = itá, pedra + paba, lugar + 'y, rio + pe, em.
Antes dos africanos, os povos indígenas.
Ali ficam os bairros dos Alagados, Boa Viagem, Bonfim, Ribeira, Uruguai, Mares, Roma, Caminho de Areia, Vila Ruy Barbosa, Massaranduba e, entre outras, a minha querida Mont Serrat, com dois Tês mudos.
Cobiçada pelos Flamengos em 1624 e pelos holandeses de Nassau em 1638, acabou mesma como uma península portuguesa, com certeza.
Thomé de Souza sabia o que fazia lá pelo longínquo ano de 1549. Assim que Salvador foi fundada, a Península abrigou olarias, currais, estaleiros, engenhos, alambiques e, também, pequenas clínicas para tratamento de enfermidades. Considerada área salubre, foram construídas casas para veraneio – inclusive a que viria a ser minha. Um patrimônio da humanidade. As vilas operárias seguiram os modelos internacionais. Mas a indústria trouxe, também, a insalubridade.
A vida material, a vida do trabalho, a vida familiar, a vida do lazer, a vida do pensar, a vida do viver.
Lá no meu querido espaço do IGHba existe o estudo de Gabriel Soares de Souza que, em 1851, relatou:
– (...) nesta ponta de Tapagipe estão umas olarias de Garcia de Avila e um curral de vaccas do mesmo, a qual ponta bem chegada ao cabo d´ella tem uma aberta pelos arrecifes, por onde entram caravellões, que com tempo se recolhem aqui, e da boca da barra para dentro tem uma calheta onde estes caravellões e barcos estão seguros.
Seguro? Seguros nunca estamos. Quantas vezes mudamos de traçado durante uma caminhada. Em outras, buscamos açúcar e trazemos sal. Pensamentos saltam no meio de nossas cacholas. Certa feita, em meio a um julgamento, vi-me viajando pelo espaço. Não pelo céu. Pelas lembranças de um sonho que tive. Aonde eu chegava ao futuro. Como agora, que me vejo narrando um passado baseado em dias que nunca vivi.
Tergiversei.
BANHO DE MAR
Barco nunca tive. Gosto do banho saudável de mar. Água pelas pernas. Ondas pequenas na prainha, sob a proteção da Igreja de Mont Serrat, que mais parece uma capela do século 16. Boiar. Soltar o corpo ao balanço do mar. Aprecio as crianças nas águas. Pouco pude ver meus filhos. Muito menos ensiná-los a nadar. Os netos, sim. Gostavam de se esbaldar nas águas – e ouvir as broncas de Carú:
– Saiam do sol. Estão com cor de telha
– Cuidado com os ouriços.
– Atenção com a caravela e a água viva
– A correnteza está forte.
A correnteza forte poderia, sim, carregar alguém até a Ilha de Itaparica, bem em frente a Salvador e na nossa Península. O som Ita me agrada. Pedra. Cercado de Pedra é o que significa Itaparica. Gosto de lá. Gosto de cá. O meu mundo não precisa atravessar oceanos. Basta cruzar a Baía. Ou penetrar, pelos vapores, até Cachoeira, onde sempre quis ter casa. Quem sabe algum dia.
Hora de rezar.
SENHOR DO BONFIM
Aqui na Península, tenho atrações por boas paróquias. Todas do século 18. A da Boa Viagem, construída entre 1743 e 46 nas terras do Engenho de Itapagipe de Baixo. A Matriz da Penha, de 1742. A do Nosso Senhor do Bonfim, a que demorou mais: 1740/1772.
Justamente a que tem o mais lindo hino.
Glória a Ti neste dia de glória / Glória a Ti, redentor, que há cem anos / Nossos pais conduziste à vitória / Pelos mares e campos baianos / Dessa sagrada colina / Mansão da misericórdia / Dai-nos a graça divina / Da justiça e da concórdia / Dai-nos a graça divina / Da justiça e da concórdia / Glória a Ti nessa altura sagrada / És o eterno farol, és o guia / És, Senhor, sentinela avançada / És a guarda imortal da Bahia / Aos Teus pés, que nos deste o direito / Aos Teus pés, que nos deste a verdade / Canta e exulta num férvido preito / A alma em festa da Tua cidade / Dai-nos a graça divina / Da justiça e da concórdia.
Gosto, inda hoje, de cantarolar, sozinho, esta letra que finaliza com a palavra Justiça e Concórdia. Que outra missão teria eu?
Feito romance, as palavras evocam um episódio histórico. Na luta pela Independência, a imagem do Senhor do Bonfim foi apoderada pelas tropas portuguesas e restituída com a vitória baiano-brasileira em 1823. No centenário, a música foi encomendada.
Segue cantada em procissão.
Aprecio o canto a uma colina sagrada. Discordo da mansão da misericórdia. Desejo a graça divina. Sigo o farol como guia. Dispenso a sentinela avançada. Preito é honra e veneração.
A guarda imortal da Bahia abre os braços sobre nós, mais do que os do Corcovado. Aqui em Itapagipe, a alma em festa cerca a imagem do Bonfim e uma linda procissão percorre as ruas desde a Igreja Nossa Senhora da Conceição da Barra, ali no Comércio. 14 quilômetros de alegria. Toda quinta feira após o dia de Reis tem procissão que termina com a lavagem das escadarias e do adro do Bonfim. Os fogos de artifício alegram as crianças. Pelo ar, os odores de água de cheiro, jarros de flores e vassouras limpam o caminho.
Já disse aqui que aprecio o sincretismo?
Certa feita, Carolina, inocente da agressividade dos raios do sol, usou um traje furadinho, bem fino. Finos ficaram as gotas vermelhas sobre sua pele branca, alva, quase transparente. A receita de talco molhado aliviou seu desassossego, aliviada porém, pela bela procissão.
Voltarei ao tema, se me permitirem.
Antes, contudo, no entanto, me atenho às tragédias náuticas de Salvador. Barcas lotadas propiciam desastres. Ali no Porto dos Tainheiros da Ribeira, é comum a passagem de canoas com mais de 50 pessoas. Para a ida a uma Festa do Bonfim, há sempre um naufrágio. Nenhuma outra canoa pode ajudar, pois estão todas lotadas. As pessoas insistem.
A Justiça nada faz. Os políticos não renovam os serviços. Os males do Brasil são...
NOTÍCIAS DO MUNDO
Na terça feira, 21 de setembro de 1915, comprei o exemplar de A NOTÍCIA – assim, em letras garrafais –, que estava em seu ANNO 2, número 298. Bom sinal. Sintoma de que estava resistindo bem à concorrência.
Com ‘REDACÇÃO, GERENCIA E OFFCINAS‘ na Rua Carlos Gomes, 94, trazia no frontispício o ENDEREÇO TELEGRAPHICO do jornal o TELEPHONE N.133. Não posso deixar de notar que na parte superior o nome do Brasil segue sendo escrito com Z.
Fiz a compra a caminho da Faculdade. Os tempos chuvosos de Salvador começam a ficar para trás. Nem precisei usar galocha, capa ou guarda-chuva. Carolina cuidou do meu figurino.
Ali li que ‘A Calçada do Bomfim está transformada em matagal’. Pena, já escrevi sobre o Bonfim – com n – por aqui.
Logo abaixo, uma notinha falava sobre Amargosa, informando que não seriam mais destinados alguns soldados para a cidade. Pouco prestei atenção. Parece que os indicados foram excluídos da corporação. Sabe-se lá o que aprontaram.
Ainda mais abaixo, uma notícia bem mais grave. Pior dizia a pequena manchete: ‘A situação da Inglaterra é muito grave’. Daqui do nosso refúgio na maior Baia da América do Sul, segunda do mundo, assistimos a Guerra Mundial à distancia. Parece que o ‘ministro das munições concita o povo ao alistamento obrigatório considerando gravíssima situação da Inglaterra no momento’. Enquanto isso, a vizinha dos britânicos, a França, vai receber carne congelada da nossa vizinha, a Argentina, grande produtor de bois. A nova tecnologia do congelamento promete matar a fome de muita gente.
No meio da Grande Guerra, uma boa notícia para os aliados.
Vou passando a vista para a direita da primeira página de A NOTÍCIA e encontro meu nome.
O título entregava o conteúdo: ‘Echos do congresso de geographia no Recife’. Com duas fotos, aparece o bahiano Dr. Bernardino de Souza cercado por congressistas em volta de uma represa d’água e, também, ladeado pelos colegas, uma multidão de homens, inclusive um general. Nosso colega vai chegar amanhã no navio Pará e será recebido calorosamente pelos acadêmicos da Faculdade Direito e membros do Instituto Histórico, como está registrado – e eu tenho laço com ambas as partes. Por isso, meu nome consta como parte da ‘commissão organisadora’.
Todos a bordo no navio. Mais uma oportunidade, nem que sorrateira, de me sentir singrando os mares, como o fiz quando também fui para Recife complementar meus estudos, lá pelos idos de 1982.
Ó céus, o tempo passa.
CAMINHADA(s)
Ao sair para uma viagem, não compreendo quem pergunta:
– Quando volta?
Ora, se nem fui, como hei de saber?
Um bom exercício é contar os passos das caminhadas. Ou quantas orações elas comprimem. Um terço inteiro? Várias ‘Aves Marias’. Diversos ‘Pais Nossos’. Algumas ‘Salve Rainhas’...
Se vivo sigo é por causa das mortes com as quais convivi. Se diário tivesse escrito, descreveria a tristeza dos velórios e enterros que acompanhei.
Velórios eram feitos em casa, em ambiente familiar, porém insalubre. As velas, o calor ou o frio, as flores, o cheiro dos corpos pertos e a frequente mania de servir café com doce ou até mesmo um aguardente.
Na hora da despedida, o descanso nem parece eterno. Por outro lado, os barulhos. Quem canta uma canção? Quais as palavras da extrema unção? O burborinho começa com vozes comedidas. Que crescem, avolumam-se e beiram a histeria.
Melhor mudar de assunto.
Um músico tinha uma interessante mania. Ao adentrar nos teatros e salas onde se apresentaria, procurava por um prego velho e torto – melhor ainda se enferrujado. Poderia ser por sorte. Poderia ser pelo acaso. Guardava o objeto nos bolsos ou nas bolsas, levava para casa, anotava a origem e colecionava.
Se assim eu o fizesse, teria juntado muitos objetos soltos pelas ruas e calçadas por onde caminhei.
Passo após passo.
ROMA, O BAIRRO
A caminhada pelo bairro de Roma, Cidade Baixa, era um exercício intelectual, também, para conhecer os muitos imigrantes que iniciavam novos negócios na capital bahiana. As fábricas surgiam da noite para o dia. Diferentes línguas se misturavam ao baianês. Italianos exercendo seus talentos manuais na cerâmica e na madeira, suiços fazendo chocolate, espanhóis e portuguêses explorando o comércio, alemães e nórdicos apostando naquela região da Cidade Baixa.
Para quem quase foi para Roma na juventude, uma novidade.
Mais velho, aprendi a pongar nos bondes que, impressionantemente, mais do que Roma, transformava Salvador em uma grande Lisboa. O ranger das rodas de ferro nos trilhos, tinha certa musicalidade. Para cima e para baixo, ou melhor, da cidade baixa para a alta e vice-versa, entre prédios históricos, seus motorneiros e cobradores sabiam o local onde malandros subiam ou desciam sem pagar.
A gatunagem é uma arte mundial. Pior era ter de parar para que alguns passageiros descessem para respirar – e com o perdão da palavra, não vomitar. Entre tantas, lembro de minha pequena neta Heloisa, que sentia embrulhos no estomago e preferia seguir a pé.
Com ela eu ia...
Do bonde ao cometa, o gatuno fica atento.
Quando o Halley passou em maio de 1910, espertalhões faturaram. Venderam máscaras de gás, pílulas contra a contaminação e até guarda-chuvas para se proteger de possíveis pedras que caíssem.
A visita de um cometa é como a de um velho tio que aparece esporadicamente.
Pena que não estávamos no Mont Serrat para apreciá-lo. As crianças adorariam.
O BARULHO DA BAHIA
As cidades são nossas moradas. Nossos dormitórios.
Berra-se, brada-se, guincha-se, ulula-se, urra-se, vocifera-se pelas cidades. Vendedores de todos os tipos, de caranguejos a mangas, elevam sua voz para se fazerem ouvidos à longa distancia.
O barulho de Salvador sempre foi alto.
Aumentou com a chegada dos bondes e dos automóveis. O primeiro a desembarcar aqui foi o Voiture Légère Clément, fabricada pela francesa Clément-Panhard. Quem a comprou foi o engenheiro e empresário francês José Henrique Lanat, morador da Cidade Alta, em Salvador, proprietário de uma fazenda perto do Forte do Barbalho. Também inaugurou a Natal Automóveis, importadora de veículos e peças. Nos anos 1920, seu nome aparece no Almanak Laemart como dono do Moinho São José, na Rua Garcia, e registra seu lado ‘caridoso’ como ‘mordomo das machinas’ da Irmandade da Santa Casa. Era uma contraposição sobre ser membro da Maçonaria conforme impresso das Officinas dos Dois Mundos, publicado na Bahia.
Sobre Maçonaria talvez me expresse em outra hora e lugar... se é que você assim o quer.
O carro desembarcou no Porto de Salvador em 13 de fevereiro de 1900, fechamento do século 19, o terceiro a entrar no Brasil. Para nos alertar, mortais pedestres, instalou uma buzina em forma. Fon-Fon. Mais um barulho para a já barulhenta Salvador. Desenvolvia até 40 km/h, com seu motor traseiro de 4 tempos, refrigerado a água, um cilindro e transmissão por corrente – é o que me contam os especialistas, já que automóvel nunca tive.
Só me lembro de Bilac, que além de parnasiano me parece ter sido leviano. Com o perdão da palavra. Data Vênia. O ano era 1897 depois de Cristo. Dia de domingo. A bordo de um Serpollet a vapor, zapeou a rumo da Estrada Velha da Tijuca.
Uma inocente árvore foi a primeira vítima do primeiro acidente de carro no Brasil.
Montado no triciclo motorizado, Olavo era carioca, membro fundador da Academia Brasileira de Letras e coautor do Hino à Bandeira, transformou o veículo em ferro-velho. Prejuízo de José do Patrocínio, abolicionista como eu, também co-fundador da Academia, proprietário do automóvel. A velocidade era de uma charrete puxada a cavalo: 4 quilômetros por hora. Passo a palavra para o escritor Coelho Neto, “Correio da Manhã”, ‘anno’ 1906...
– Patrocinio insistia com o machinista para que desse mais pressão e o poeta (Bilac) sorria desvanecido guiando a catastrophe através da cidade alarmada. Por fim, num tranco, o carro ficou encravado em uma cova, lá para as bandas da Tijuca e, para trazel-o ao seu abrigo, foram necessários muitos bois e grossas correntes novas. Enferrujou-se. Quando, mais tarde, o vi, nas suas fornalhas dormiam gallinhas. Foi vendido a um ferro velho.
O assunto comoveu João do Rio na crônica ‘A era do automóvel’:
– O primeiro (carro), de Patrocínio, foi motivo de escandalosa atenção. Gente de guarda-chuva debaixo do braço parava estarrecida, como se tivesse visto um bicho de Marte ou um aparelho de morte imediata.
Não sei se existe algum animal em Marte. Sou da era pré conquista espacial. Sei que virá, como previam livros e filmes de ficção científica. Sou cético sobre civilizações extraterrestres.
PS: Voltarei a Bilac com uma tradução de sua poesia ‘Primavera’.
Mas só (perto do) fim deste livro...
ATENÇÃO TRAZER POESIA PARA CÁ
AVIÕES E VIAGENS
Não sou, nunca fui, nunca serei um aviador nem jamais viajei de avião.
Muito menos me chamo Sacadura ou Gago, a dupla de portugueses que completou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Os sobrenomes Cabral e Coutinho demonstram certo destemor.
Pingaram por Recife e Vitória e desembarcaram na Ilha das Enxadas, capital brasileira, Rio de Janeiro, gloriosos e glorificados, no dia 17 de junho de 1922.
Um hidroavião. Corajosos. Acompanhei a saga pelos jornais.
O próximo passo, será, certamente, a ida para a Lua, como escrevem os escritores de ficção científica.
TELEFONE
Já adiantei o relógio com mudanças nas tábuas de leis.
Conheci parteiras e maternidades.
Certo dia, dormi súdito de um Imperador e acordei cidadão republicano.
Virei de um século para outro.
Testemunhei a chegada da luz elétrica.
Andei por trilhos recém-inaugurados.
Naveguei em vapores.
Subi de elevador.
Fiz leituras de diferentes Constituições.
A pena deu lugar à máquina de escrever.
O inesperado aconteceu com a chegada da telefonia.
Aqui entra a história do telefone na Bahia.
O melhor é ouvir a voz de quem está distante.
Salvador passou a instalar telefones privados a partir de 1881.
Só serviam para falar na circunferência urbana.
Já era um luxo. Instalações comerciais e residências se ligavam sem telefonista.
A Cidade Baixa ganhou um telefone público com função social. Foi em 1898.
Servia para médicos e pacientes em socorros de urgência.
A cidade ganhou um novo e nobre emprego: a de telefonista.
Com mudança de comportamento.
Era a vez delas.
E ‘Elas’ foram as primeiras contratadas.
Em uma sociedade com preconceito ao trabalho feminino, uma conquista.
Até assédio masculino as profissionais sofreram.
A seleção era rigorosa.
Havia posto médico na Estação Central para exame prévio das candidatas.
Precisavam de resistência física, bom ouvido e ausência de moléstia – especialmente contagiosa.
Trabalhavam na Praça Ramos de Queiroz, perto do Plano Inclinado Gonçalves.
Cidade Alta.
A ordem era ter pouco contato verbal com os clientes.
Sala bem iluminada, cada mesa de operação tinha um abajur.
Mediar uma conversa não é fácil.
Sei. Porque sei.
Entre advogado e promotor, há discrepâncias.
Imagine entre marido e mulher.
Pai e filho.
Patrão e empregado.
Senhorio e locatário.
Médico e paciente.
Não tive parentes nesse serviço.
Deve ter sido difícil.
Como no tribunal, o silêncio faz parte do código de ética.
Baianos conservadores reclamaram. Lógico.
Órgãos de imprensa denunciaram o código de silêncio das telefonistas.
Precisavam denunciar trotes e notícias falsas. Se preciso fosse, as defenderia.
O sigilo é fundamental – mesmo que sirva contra nós.
Não eram juízas.
Esperado: não eram ‘do lar’.
As elites soteropolitanas se regozijavam.
Novos nomes ganhavam os céus da cidade.
Fonógrafo. Cinematógrafo. Telégrafo.
E fios de Bondes e de Telefones.
Só faltavam dois detalhes: a vigilância e a ordem pública.
Sublevou? Ação dos órgãos de repressão.
Peço desculpa. Isso não é assunto para mim.
Vocês, no futuro, é que se entendam.
Tecnologia é civilização e progresso?
Na maioria das vezes, sim.
Embora o revólver não seja símbolo de sabedoria.
Já o automóvel transporta e, também, atropela.
Em 1924, o interior foi integrado pelo sistema telefônico.
Telefonemas interurbanos viravam realidade.
Jules Verne regozijaria.
Feito Marte e a Lua, a minha Feira, a São Gonçalo de Francolino, a Amargosa de Calu e a Alagoinhas de Cora e Geraldo estavam como se fosse na sala ao lado.
Éramos Planetas com Luas.
Ganhávamos uma nova oportunidade de falar e ouvir.
Com uma diferença da telefonia privada.
Chegava o sistema de Bell, o inventor, que interligava várias linhas.
O longínquo Rio Vermelho, que eu mal conhecia, conversava com Itapagipe, a minha península.
Carolina me ouvia, direto da Faculdade, do Fórum, do IGHba ou da Academia.
Eu já sabia que não viveríamos mais sem aquele aparelho no cenário da sala, junto com o relógio Cuco, a cristaleira e o oratório que trouxéramos do interior.





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