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TRADUÇÕES

         O GIAOUR

Fragmento de uma narrativa turca 

POR LORD BYRON

Traduzido do Inglez por Filinto Bastos

e oferecido ao Dr. Cyridião Durval

Caetité, Bahia

10 de Julho a 15 de Agosto de 1890.

 

Recordação fatal! desgosto que estendida

A sombra tem por sobre as mágoas e o prazer:

Para o qual nada tem brilhante ou negro a vida

Nem balsamo a alegria e estimulo o sofrer! ...

                                                       Moore

 

As ondas que do heroe Atheniense estão

Sob o tum’lo a rolar, nenhuma viração

A gritar aquella tumba, erecta sobre o outeiro,

Que – ao navio de volta à pátria - o adeus primeiro

Envia-a dominar a terra que ele em vão

Salvou: quando outro heroe surgirá desse chão?

 

Região encantadora! Onde mil maravilhas

Das estações a rir estão por essas ilhas

Que, vistas de Colonna, ao largo, o coração

Nos alegram e o olhar, attrahindo à solidão

Que oferta placidez ao tumultuar humano.

 

Encrespando-se, branda, a face do Oceano 

Alli reflecte a côr de muitos alcantis

Batidos das marés, que se quebram gazis

Por sobre esses Edens das praias do Oriente:

E se uma vez, acaso, a briza passa rente

Dos mares e lhes parte o seu Crystal de anil,

Ou da árvore desprende a bela flor gentil. 

Ah! Como nos enleva esse ambiente claro

Que perfume nos dá mais precioso e raro!

A rosa que se expande à luz aurea do sol,

A Odalisca do terno e meigo rouxinol - 

A virgem que lhe escuta a eólia melodia -

Alli, no umbroso valle ou sobre a penedia,

Do amado aos cantos, abre as pet’las, a corar:

E ella a sua rainha, a rainha sem par

Dos jardins do Oriente – ao temporal agreste

Resgardada e ao vigor dos invernos do Oeste

E à neve - , do favonio e ledas estações

Bemdita; envia ao ceo puras emanações

Em troca dessas mil ofertas da natura:

Seu perfume celeste e deslumbrante côr.

Alli há de verão as flores, e de amor

- Fascinante retiro; a silenciosa gruta

Onde vive o pirata, em leve barco, à escuta

 {+} {+}{+}{+}{+} {+}

 {+} {+} {+} {+} {+} {+} {+}

Dalgum som que desperte o promontório, além;

E, quando deslisar tranquila prôa vem,

E o marinheiro alegre a doce cantilena

A’ guitarra acompanha e da tarde, serena,

A estrela surge, ao remo, atendo-se subtil,

Cauteloso – a guardal’o a sombra do alcantil-

O noctívago empolga a presa, e bem depressa

Ouve se atroz suspiro, e a melodia cessa ...

Aonde à natureza aprouve collocar

Como p’ra Divindade – esplendido alcançar.

E a graça dadivosa e o magico sorriso

Entremeiam-se em tão jocundo paraiso:

E’ de extrahar que ali o homem vá cruel

- Esposo da maldade – o bem travar o fel.

Aos pés calcando, rude, as perfumosas flores

Que um instante sequer não teem de seus labores

Nem lhe pedem cultivo à cuidosa mão,

Para que encanto dêem à rutila amplidão;

E abrindo à leve briza as setineas opálas,

Meigas, pedem-lhe só que se digne poupal as!

E’ de extranhar que ali, no remanso da paz,

Tumultue a paixão indômita voraz,

E a rappina e o impudor campeiem, livremente

Nas trevas immergindo a região intente.

E como se, na lucta, a espíritos revéis.

 

Do inferno – os Seraphins cedessem; os doceis

Dos thronos celestiaes a reprobos guardassem,

E a prole de Satan os ceos reverenciassem ...

O’ scena deslumbrante às graças, ao prazer,

 

Maldito seja o vil que contra ti se erguer!

 

Quem à fronte inclinou sobre um morto, ao primeiro

Dia do passamento – dia do derradeiro

Do perigo fatal, da tetrica afflicção -

O primeiro do nada à ignota escuridão - 

(Antes que da ruina dos dedos invejosos

Apague à belleza os traços portentosos); 

Quem lhe notou no rosto o angelico e meigo ar,

O enlevo do repouso alli a se espraiar, 

- Linhas débeis que dão à face immóvel, calma,

Lanquidez, que se impõe fundamente à nossa alma,

Fazendo-a renovar d’alem tum’lo à região 

Onde ha eterna paz e a eterna solidão; ... 

E apenas exceptuando uns olhos já sem lume

Que lágrimas não teem nem graças onde o nume

Das seducções se ostente; excepto esse torpor

Da palpebra gelada, immovel, que o terror

Transmite ao coração do espectador , à fria

Obstrução que devasta em fúnebre apathia

- Como se ele temera o destino final

 

Após a morte sim salvo o estigma fatal

Dum momento, duma hora, ele crêr não pudera

Na força do tyranno – horrendamente fera:

Tão meigo o olhar que alli a morte regelou, 

Olhar primeiro e extremo onde a luz desmaiou! 

Assim é dessa costa o aspecto, a perspectiva:

A Grécia - porém não a Grécia grande, viva!

Tão glacialmente bella e mmeiga que a admirar 

Chegamos por ali não quer a alma poisar!

Da tuma que não sente e que não tem a viveza,

Apenas a atavia a funerea belleza:

Belleza que se expande à mesa e horrivel flor 

Da morte e possue della a desbotada côr ...

- Debil e extremo raio à expressão da existência -

- Doirada c’rôa ornando a fronte à decadência -

- Brilho que o sentimento empresta ao triste adeus 

Da despedida, quando evola se p’ra Deus!

- Scentelha dessa luz, quiçá do ceo partida,

Que brilha e não lhe aqueceà terra tão querida ! ...

Do relembrado heroe ó linda região,

Cuja terra do plaino ao monte – na extensão,

 

Foi tumulo da Glória ou berço à liberdade!

Será possível, pois, altar da Magestade,

Que de tudo o que foste apenas reste o que és?

 

Approxima-te, vil escravo: - o que tu vês

Oh! dize-me, não é a passagem gloriosa

Das Thermopylas? dize: à onda azul,, raivosa, 

Que ulula em derredor, ó progenie servil

De livres, qual o nome e qual este alcantil?

São teus golpho e rochedo, altiva Salamina!

Estas scenas e a sua historia tão divina 

Servem para lembrar o hodierno dever: 

Colhei de vossos paes por sob a cinza a arder

O brazido que tem suuas antigas flammas.

Aquelle que se atira às perigosas tramas

Da lucta e alli succumbe, um nome de terrôr 

Aos dos seus accrescenta: aos tyrannos pavôr

Inspira e lêga à prole a esperança, o renome

Que até na morte é puro e na infâmia não consome.

Porque da liberdade o prélio, se surgiu,

Mostrando o pae ao filho o sangue que os uniu,

Perdido muita vez, tem afinal victória,

Testemunha-o, ó Grécia, a tua grande história,

Attestam-no immortaes edades! Quando os reis,

No véo da escuridão, levantavam – cruéis,

Pyramides sem nome, os teus heroes podiam,

Se lhes negava o mundo à tumba, em que jaziam,

Columnas, exigir monumento eternal:

As montanhas azues de seu paiz natal! 

 

Mostra aqui tua Musa aos olhos do extrangeiro

Dos bravos o sepulchro à fama alvissareiro.

Fora logo narrar, tristonho descrever

Os passos que da gloria à desgraça vão ter.

Ao menos, jamais poude o extrangeiro inimigo

Tua alma rebaixar: ella cahiu comtigo!

Sim! Muito te humilhaste a vs imposições

De déspotas crueis, a ordens de villões!

 

Que poderá dizer de tua terra ardente

O visitante? Alli de tua edade ingente

De heróres – não se descobre uma legenda; alli 

Nenhum thema se vê que arrebate após si

A musa pelos céos, tão alto, como outr’ora,

Quando o Grego fitar podia a rubra aurora!

Em teus vales sem fim , os corações de escol,

Almas planas de brio, esplendidas ao sol

Da gloria, os quaes levar as façanhas notáveis 

Podiam tua prole – abjectos, detestáveis,

Do berço à tumba estão – misérrimos +

De rastos, servos... não, escravos de outros vis

Escravos, tão somente ao delicto sensíveis,

Marcados de baldões infames, desprezíveis,

Que dos brutos abaixo os põem em abjecção:

Sem um independente e altivo coração,

 

Sem o valor, que exala os peitos dos selvagens

Proverbial malicia às visinhas paragens

Levando e a velha astucia, o subtil Grego assim

É conhecido ... e só por fama tão ruim.

Em vão a Liberdade uma alma evocaria

P’ra o jugo desfazer que o collo seu premia!...

Silencio a tanta magoa! Oh! versos meus, cessai!

Agora, um flébil conto e que só pena trae

Vou narrar; o ouvinte achará verdadeiro

Motivo para chorarão que o ouviu primeiro.

Ao longe, na amplidão saphirina do mar 

Reflecte-se da rocha a sombra que ao olhar

Do pescador parece o traiçoeiro bote

Dum pirata insular, talvez dalgum Mainotte;

E temendo por seu cahique, vai fugir

A’ suspeita enseada ali perto a surgir:

E embora de trabalho e fadiga opprimido,

Pois abundante pesca havia conseguido,

Devagar, mas com força, agita o remo, e então

A resguardada praia além de Porto Leão

O recebe ao luar magnético, esplendente

Que enche de encantos – mil uma noute do Oriente.

 

{+}trovejando passa em tão negro corcel

{ +} solta , e a marchar em rápido tropel?

Dos forros ao ruído – os echos cavernosos

Vão despertando além os montes silenciosos,

A cada nove golpe , a cada novo corcovear;

A escuma que ao gineto o flanco a debuxar

Se vê, parece que é das marrêtas varrida

E embora de cançaço aquella onda sem vida

Tombe, do cavalheiro o peito não cedeu

A’ lida: e se amanhan a tempestade e o seu

Tumulto redobrar, Giaour, será mais calma

Do que este furacão que te revolve a alma.

Não te conheço; a raça odeio-te; porém,

Noto em tuas feições o que os tempos além

 

Poderão refazer, mas não delir: és moço

E pallido: a paixão em seu rude alvoroço

A fronte requeimou-te: ao chão volves o olhar, 

Mas um meteoro só dos olhos teus julgar

Deixa assás que tu és d’aquelles que o Othomano

Evita ou, cruel, mata em frenesi insano.

Sempre, sempre avançando, o olhar me surpr’endeu

De espanto, e posto que precipite correu

- Auto mim – qual demônio, - escapando , seu vulto.

Seu aspecto em meu peito, ainda que em tumulto,

A lembrança imprimiu; a meu ouvido echoou

Muito tempo o tropel ... violento esporeou

O seu negro ginete, ao abysmo avançado

Que o pique está o mar enorme sombreando:

Contorna-o: arremette o seu corsel, e assim 

A alcantilada rocha ocultou-o de mim.

Bem sei quando importuna a quem foge o indiscreto

Olhar observador: o brilho predilecto

Da estrela não encanta a quem fugindo vae

Tão temerariamente, e a dor ou o odio attrae.

Tomou direito a estrada: antes, porém, faiscante

Um olhar desprendeu, qual se extremo; um instante

Conteve o cabriolante animal e o deixou

Resfolegar da marcha um instante: ficou

 

Um instante em pé sobre os estribos: que busca

Além pelo olival co’a vista irada, busca?

Por sobre o outeiro surge o crescente: a brilhar 

As lâmpadas estão da Mesquita : apezar

De não responder o echo do mosquete ruidoso

Que a distância, retumba, o clarear vistoso

Das descargas denota o zelo, a grande fé

Que alenta os varonis filhos de Mahomet.

A cada novo tiro aclara-se a Mesquita

E perde-se no espaço a chammejante fita.

E’ noute – já se pôz o sol de Rhamazan:

E’ noute – começou a festa de Bairam:

E’ noute – e quem és tu, nas vestes extrangeiro,

Que teme um tão medonho aspecto guerreiro?

Esses de quem à espera estás ou a fugir,

A ti, aos teus quem são? Que aguardas porvir?

 

Parou , algum pavor às faces lhe assomára:

Mas, de súbito, o medo em ódio se tornára:

Odio que não desponta em rubra exaltação, 

Da raiva passageira à sanguínea explosão,

Mas em a palidez do marmore funereo 

Cuja brancura faz mais triste o cemitério.

Co’a vista deslumbrada, a fronte reclinou:

 

Ergueu o braço então: com a força levantou

E acennando p’ra o ceu com o punho cerrado, 

Em fugir ou ficar sentiu-se embaraçado ...

Inquieto por seguir o soffrego corsel

Com força relinchou: - ao relincho cruel.

Desce o braço e procura a espada que trazia ...

Desfizera o ruído o sonho, a fantasia,

Que – desperto - o embalara: assim o triste piar

Do mocho faz tremer quem a repousar.

Como se o arremessar azagaia certeira,

O ginete dispara em célere carreira,

A seu gesto: transpõe o rochedo e não mais

Repercute na encosta o seu tropel fugaz:

Vence o pico da rocha e não mais se descobre

O christão capacete, o seu aspecto nobre.

Por um momento só o cavalo estacou

Fortemente bridado: um momento parou

Mas, como se da morte a sombra o acompanhasse,

Investiu a correr: n’esse instante fugace

Invernos da Memoria inundaram-no, e então,

Do tempo a cada gotta, uma era de aflfição,

De crimes uma idade, esvahira-se. Basta

Um tal momento a quem o Odio ou Amor devasta

Ou Medo p’ra soffrer dos anos o fatal 

 

Estigma! Que sentiu elle sob o letal

Imperio do martyrio, em seu peito opprimido 

Por tanta magoa? Aquelle instante consumido

 

Pelo tempo, e que a sorte a seus dias marcou,

Quem poderá dizer quanto é que perdurou?

Dos tempos embora fosse a ampulheta num momento

Foi uma eternidade então ao pensamento!

Pois, qual do ethereo espaço a imensa vastidão,

Não tem limite a idén; a consciência, a razão

Abrange, as quaes em si, a dôr contêm que encerra

Magoas sem fim, sem nome e esperança na terra.

 

Corre o tempo: o Giaour impavido partiu:

Foi vencedor acaso? Acaso sucumbiu?

Hora sempre maldita – a em que elle foi ou veio!

 

A maldição tornou, ao crime horrendo, feio,

Contra Hassan – um palácio em tumulo. A feroz

Convulsão do simoun, que de si leva após

Quanto encontra – horroroso arauto da desgraça

Que recurva o cypreste, humilde, quando passa:

(O cypreste que chora quando ainda a dôr 

De todos emmudece ) – é como seu furor.

Não se divisa mais na cachoeira um cavallo:

Pelos salões de Hassan não se nota um vassalo;

Da aranha solitária a leve teia gris

Fluctua mollemente, abrindo-se às senis 

Paredes: por ali revoando, o vil morcego

Desfructa ao bello Haren da volúpia o conchego: 

E até na fortaleza, outr’ora tão feroz.

Sobre a torre – fanal o mocho vivo a sós

Uiva o selvagem cão da fome à beira, horrível,

Devorado de fome e sede inextinguível,

Porque ao marmoreo leite a corrente fugiu

E o damninho ervaçal e o pó a consumiu. 

N’outro tempo, era grato esta lympha ondulante. 

Contemplar – desfazendo o calor soffocante -

Quando argentino orvalho ao ceó, em turbilhão

Phantastico, atirava – em redor a amplidão

Enchendo de frescor voluptuoso, e o terreno

De verdor que se fazia alegre, bello, ameno:

Era grato mirar, quando limpido o ceo, 

Ondas de vítrea luz sob o anilado véo:

E ouvir-lhes, pela noute, a doce melodia ...

E muita vez Hassan, na puerícia, havia 

Brincado de cascata em derredor, feliz,

 

E ali por muita vez de olhos infantis,

No aconchego materno, o somno lhe cerrára. 

 

Ao ruído harmonioso; e muita vez da clara 

Torrente ao pé, a voz da belleza louçan 

Havia fascinado, à juventude, Hassan:

E mais brando lhe soava ao encantado ouvido

A vibração que em si continha d’alma o soido.

A velhice de Hassan não fitará, porém:

D’alli o rosicler – o sol tombando além. 

Como seccou à fonte a lympha resplendente, 

Á artéria lhe fugiu o rubro sangue ardente.

Alli não se ouvirá jamais a humana voz

Em tom festivo ou triste, o em furor atroz.

O mesto som final, que da aragem na etherea

Aza perdeu-se, foi imprecação funerea,

Selvagem mulher: sumiu-se a imprecação, 

Tudo é silencio; resta exposta ao furacão

{ + }, e, à chuva, ao vento desabrido.

{ + } lhe correrá o ferrolho esquecido ...

 

Pela estrada, deserta { + } { + }{ + }

Alguém dum semelhante a { + } e contar

Um echo de conforto a { + } de vida

Dirá por fim: alguém da na { + } demora

Inda que num somente a vida que transluz

Há muitos camarins ali nos quaes reluz

O oiro que a soidão despresara contente

 Nesse zimborio aonde a Ruina seu dente

Asperrimo cravou – lento cancro - a carpir

Vê-se a melancholia ao portal; o Fakir

Já não repousa ali nem o Deryche errante,

Por quanto os não convida a Bondade um instante

Ao descanso; não mais o extrangeiro terá

Alli conforto e o pão e o sal, não benzerá.

A Pobreza e a Opulencia, ali despreocupadas,

Encontram-se depois que foram sepultadas

Com Hassan a Piedade e a nobre Polidez

A fralda da montanha. O seu tecto ao em vez

De abrigo, é antro vil do Desamparo à fome.

Depois que do infiel o sabre sem renome

Infame, lhe partiu o turbante, faltou

Conviva a seus salões, que o servo abandonou.

De passos que veem perto ouço agora o ruído,

Humana voz, porém, não chega a meu ouvido,

Mais perto – posso já turbantes descobrir

E ataghans em bainha argentea; à frente, o Emir

Distingue-se dos mais, trajando vestidura

Verde. “ Quem és tu? Dize.” “ A profunda mesura

Que te faço diz bem que sou de Mahomet

Crente” “O fardo que assim trazeis, cuidosos, é

De certo mui precioso e a vós, penso, convinha

Que esse barco levasse alem, seguro e asinha.

Dizes bem: desamarra o teu barco, e deixar

Esta praia silente oh! fal- o sem tardar! ...

Não : deixa a véla presa: o remo, que extendido

Ao lado tens, empunha agora, precavido,

Duas rochas segue em meio onde vão

As águas do canal, em funda escuridão.

Repousae do trabalho: andastes bellamente

Nossa empreza findou depressa, felizmente.

Contudo, eis a maior viagem , penso eu.

Que alguem ...

.........................................................................

        Funebremente o fardo o mar fendeu,

Aos poucos a imergir-se: a onda pela praia

Espreguiça se, calma, e no areial desmaia ...

 

{ + } mergulhou o fardo e padeceu

Que certo movimento extranho alli se deu

Naquella hora, talvez um reverbero ardente

Esbatera de chofre alli sobre a corrente!

Eu contemplei-o até de vista se perder

- Como pequeno seixo algum tempo a correr -

l’ouco a pouco, depois, bem como um ponto branco.

Esmaltando à maré o levantando flanco;

E toda a sua história e segredos o mar

Sepultou: só do abysmo aos Genios - prescrutar

É dado ao sem arcano: e, tremulos, na gruta 

De coral murmurando, a vaga os não oscuta.

 

Bem como a borboleta azul da oriental

Primavera – rainha ainda, sem rival,

Dos insectos – no campo esmeraldino vôa,

De Cachemira, e o enbelo ao menino aguilhôa 

De perseguil-a , o attráe ali de flor em flor,

Em caça fatigante e cheio de torpôr,

Após hora perdida, o abandona e choroso,

E triste, quando busca o espaço luminoso

{ + } seduz a Belleza e edade juvenil

{ + } do brilhante côr e aza tão subtil:         

Uma à caça de vans esperanças e medo

Que tem prantos ao fim, começando em folguedo ...

Se vencidos, tombando em igual maldição,

Rolam virgem e insecto – em dores e afflicção.

- Viver cheio de angustia – a perda do repouso

Desde o brinco infantil té dos jovens ao gôzo

 

O almejado brinquedo, assim que se o colheu,

Perde imediatamente o brilho, o encanto seu.

Pois ao menor contacto a fascinar-lhe o esquivo

Enleio, da beleza o raio é menos vivo.

Depois a côr fenece, a graça, a seducção,

Restando-lhe voar – ou morrer na solidão.

E tendo a aza partida – o peito ensanguentado -

Quem sabe qual será das victimas o fado?

Ai! Pode a borboleta a aza molesta erguer,

E da rosa à tulipa o mel puro sor{ver?

Ai! A beleza pode em seducção de uma hora

A alegria encontrar, como a inocência out’ora?

Não” Do risonho ambiente os insectos gentis

Não cobrirão com a aza a parceira infeliz.

Dos seres que mais ama o homem a dor se inclina:

Exceto quando aos seus culposa mancha inquina:

E lagrimas qualquer na afflicção pode ter

Menor errante irman que, louca, se perder.

 

A alma que do remorso ao fogo { + }

E como o escorpião cercado da violenta { + }

As chamas a subir em candentne prisão

Cingem no todo até de mil golpes ferido.

Convulso de afflicção, erguer se endoidecido.

Um só allívio tendo, um só, p’ra lhes oppôr

O afiado agulhão, cujo veneno, horror

E eficácia conhece o inimigo, ele o vibra.

Em fúria contra o peito, e rôta a sua fibra

Vital foge à tortura: assim a maldicção

Da duvida em nossa alma: é como o Escorpião

Que em meio ao fogo vive ou morre desvairado.

O espírito assim é de remorsos lancendo:

Sem terra ou céo – descrença aqui, alem, negror: 

Chammas em torno e dentro, o mortal estertor!

 

Do Harem o negro Hassan partira: feminina

Belleza não o prendou ou forma peregrina

Buscando uma ave rara os dias consumiu.

Porém, de caçador o prazer não sentiu.

 

Não costumava Hassam em tão rude trabalho

Porfiar, em quanto Leila estava no Serralho.

E Leila por ventura ali não volverá?

Hassam, somente Hassam, tal conto narrará

N’essa tarde, em que Leila ao Serralho    { + }

Na cidade um rumor – um boato espalha

Quando de Rhamazan se poz o ultimo sol,

E a cada minarete, após lindo arrebol,

Lampadas aos milhões mostravam o esplendente

Festival de Bairan pelo infinito Oriente

Foi quando ella sahiu, como p’ra se banhar,

Que embalde Hassan, com raiva, a fora procurar;

Ella evitado havia, em disfarce de um pagem

Da Georgia, o furor do Hassan: quando em paragem

Onde o império não tem Musulmano senhor.

Leila esqueceu de todo, aos braços do Giaour ...

Alguma coisa a Hassan era, em verdade crível:

Comtudo elle em seu peito a adorava, sensível:

Na escrava confiára em extremo : a traição

De Leila dormirá da tumba na solidão ...

E n’essa mesma tarde a Mesquita correra

E após, de seu kiosque, à festa apparecera.

Eis qual a narração que referido teem

Os Nubianos seus, que a não vigiaram bem ...

Dizem outros, porem, que em tal noite, ofegante ...

Da branca Phingarï e o raio tremulante,

Fora visto o Giaour em seu negro corsel:

Visto - porem, sosinho – em célere tropel

A correr pela costa - espora ensanguentada -

Não trazendo apos aí nem pagem nem a amada. 

 

Dos olhos dela o suave e encantado negror

Quem o pintára ? A corça observa a linda côr

Dos olhos , e terás auxilio a fantasia:

Em tão langue negrume: entretanto, radia

Sob a palbebra leve uma alma ardente, qual

O rubim do Giamschid brilhante, sem rival,

Alma, sim! Mesmo quando o Propheta dissesse

Que a forma apenas é argila que fenece - ,

E por Allah! “não” diria; embora de Al – Sirat :

Sobre a arcada eu ficasse eternamente, e lá

Sobre o rio de fogo, aos olhos meus - formosas

Huris do Paraizo – acenassem, graciosas.

Quem de Leila notou o fascinante olhar

O dogma ao credo seu ha de repudiar

Que diz – ser a mulher apenas cinza fria,

Brinco vo a afagar o gôzo à tyrannnia

O Muphti n’ella vira , ao clarão sideral,

Dos olhos atravéz o brilho do Immortal.

De sua linda face a côr viva, carminea,

Semelhava-se a flôr da rommrira sanguínea.

Desabrochando, A coma em negra profusão

Quando a solltavaem meio às servas do salão.

 

{ + } do que todas alto, o mármore varria

 { + } seu lindo pé na brancura vencia

{ + } neve da montanha, antes de o céo deixar

{ + } que nascera, { + } terra as manchas vir tomar,

{ + } o cysne – inda novo – as aguas bipartindo,

{ + } filha da Circassia - o pássaro mais lindo

{ + } Franguestan – movia o corpo

{ + } como o cysne rufla a crista senhoril

{ + } margens a pairar, em que fenece o lago,

{ + } briza ligeira no perfumoso afago,

{ + } as aguas de leve, a modo de desdém.

{ + } um forasteiro acaso ali, por perto vem

{ + } erguia o collo alvíssimo a formosa

{ + } e, de tal beleza ornada portentosa

{ + } sobre a Intrusão despedia, e tombar

{ + } loucura fazi o cobiçoso olhar.

{ + } porte era gracioso encantadoramente

{ + } a seu amado era fiel e ardente

{ + } amado, ô Hassan terrível, quem será ?

{ + } a teu ouvido oh! jamais soará!

Com vinte dentre os seus vassalos, a caminho,

Põe-se cruel Hassan, pressuroso, { + }

Ataghan e o arcabuz ornam seu esquadrão

Como p’ra guerra armado, a toda a perfeição

Em trajo de guerreiro. O chefe marcha em frente.

Pende-lhe do talim cimitarra valente

Embebida no sangue altivo dos Amiaut,

Junto ao desfiladeiro, onde outr’ora catacou

De rebeldes um bando, e poucos escaparam,

Dos que no val do Parne, intrepidos { + }

As pistolas, que traz seu boldrié, já

Serviram noutro tempo a afamado Pachá

E o salteador inda hoje, os vê tremendo, embora

{ + } pedras e oiro as esmaltem agora.

{ + } que pedir fora uma noiva { + }

E mais fiel que cas’outra ingrata que tão vil,

O abandonou, roubando a seu peito o repouso

Por um infiel ... peior! Por um Giaour odioso! ...

 

A derradeira luz do sol no monte, além ...

Brilha e por sobre a fonte argentes bater vem

Na qual o montanhez abençoa,contente

{ + } { + } { + } - transparente

O Grego mercador, descuidoso, pousar

Vae ali, pois em vão iria procurar

Repouso na cidade, onde o senhor impera;

E, temendo por seu tesouro oculto, espera

Alli bem descansar – longe da multidão -

Elle – na turba escravo, e livre na soidão - :

E de defeso vinho as taças esvasia,

Que jamais o Islamita nos lábios levaria.

 

O Tartaro dianteiro à garganta chegou

Seu barrete amarello entre os mais destacou.

Os outros formam linha extensa e, vagarosos, 

Vão do desfiladeiro aos flancos sinuosos.

Em cima vê-se o monte o píncaro a ostentar

Onde os abutres vão, sedentos, afiar

Os bicos, p’r’ao festim nocturno se entregarem,

Antes de ao novo dia os raios fulgurarem.

Em baixo, d’ um ribeiro a corrente hybernal

Extinguiu-se de todo ao calor estival,

Restando um canal negro, infectado, esquecido.

Em que desponta o arbusto e após morre { + }

No meio, a cada passo, ou pelo furacão

Partidos, ou do tempo a rude convulsão,

{ + }estão de cinzento granito { + }

Atrancados desmonta no píncaro infinito { + }

Sempre nublado , quem já divisou sem { + } { + }

 

De pinheiros no bosque eil-os alfim chegaram

Bismillah! Felizmente os perigos cessaram,

Pois além já descubro à planície na extensão 

Onde os bravios corseis indômitos voarão

Assim fala o Chiauz e, emquanto assim dizia:

Sobre sua cerviz uma bula zunia.

 

O Tartaro da frente o chão logo mordeu.

Cada qual mal contendo o árduo ginete seu,

Rola por terra; trez, porem, não conseguiram

Nontar de novo. Então aquelles que os feriram

Occultos. A clamar , pedem vingança em vão

Os morimbundos. Nua a espada – e sobre o arção

Debruçados, alguns – carabina pendida -

Meio guardados são pelos corseis. Na lida,

Buscam outros a rocha, e a morte os colhe ali,

De emboscada: à cohorte inimiga p’ra si

{ + } pedem compaixão ...o inimigo lhes escuta

{ + } estertor na penhascosa gruta ...

Somente o rude Hassan não pretende apeiar

Do seu cavalo e quer ainda continuar

A marcha, quando vê pela vanguarda, ardentes

Chammas – claro signal de que os ladrões, prudentes,

Haviam ja tomado o caminho que então

Restava ao prisioneiro – à fuga, à salvação.

Puxou nessa hora a barba horrível, furioso,

E o olhar seu flammejou de modo impetuoso:

Inda que longe ou perto estejam a zunir

As balas, mais atroz no momento vi fugir ...

O inimigo abandona então o esconderijo

E os vassalos de Hassan manda em tom duro, rijo,

Se submetam: um só olhar torvo, uma só

Palavra de Hassan é mais temida que a mó

 

De inimigos cruéis e sua espada; e o escasso

Bando não se sentiu com receio ou cançaço

Movendo a carabina ou o ataghan; nenhum

Implorou compaixão ao grito de “ Amaun!”

Sahindo da emboscada, agora a descoberto

Os derradeiros veem , ja perto, muito perto,

Deixam o bosque alguns, que soem pelejar

A cavalo. Quem é que os está a commandar

Co’uma espada extrangeira assim tão flammejante

Em sua rubra destra elevada, pujante?

É ele, sei, conheço-o muito, sim !!

Conheço pelo olhar sinistro que p’ra mim

Volveu e lhe auxilia a { + }{ + }

Eu reconheço bem na pallidez da face:

Conhece-lhe ao ginete a azevichada côr;

E posto que ora à Arnaut trajado em meu furor

Não fugirá – o vil apostata da abjecta

Crença que o professou - de sua vida é meta.

É ele! a nosso encontro azada é a ocasião,

De Leila impura – amante, o maldito Christão.

Como o rio que lança ao agitado oceano

Sua negra caudal, em phrencsi, insano: 

Assim como, no fluxo e refluxo, a maré

Uma brilhante e azul coluna erguem de pé.

 

Para quebral-a após, bem mais longe, a muitos passos;

- Em flocos altiva escuma e a onda nos espaços

Do mar tumultuando – emquanto o turbilhão

Enraivecido e a vaga altiva, na amplidão,

São tangidos ao choque horrífico, gelado,

Da invérnia e: e através do espelho bronzeado

Do enorme oceano; e em meio ao ruidoso fragor,

D’agoa a fulguração, em deslumbrante alvôr,

Esbate sobre a praia extensa, que esplandece

E das vagas ao choque agita-se, estremece:

- Tal como o rio no oceano emmergir

Vai a corrente, e a onda uiva se a vê cahir

Assim junctam-se os dois grupos que procurava

O ódio ha muito e agora o fado aproximava. 

Dos sabres ao encontro – o ruído fatal:

O silvo que desprende esse golpe mortal

Cujos echos o ouvido, espantado, recebe;

O soido que de perto, ou longe, se percebe

Como rumor confuso, ou lúgubre fragor;

O embate, a lucta, os ais, os suspiros que o horrôr

 

Da guerra { + } alem repercutem nos valles

- Mais proprios ao pastor e à historia de seus males -

Poucos luctando, embora, é mui renhida a acção!

Qual sua vida expõe: nenhum que compaixão!

Por mais que os jovens corações se comprimam

Ou de lucta, jamais eu cedi ao torpor;

De amigos rodeado, ou cingindo o inimigo.

Do repouso o languor nunca esteve commigo.

Agora, nada tendo a odiar ou querer,

De esperanças privado ou de orgulho, antes ser

Desejava o damninho insecto que serpenteia

Do castello por sobre as muralhas, a ameia,

Que passar esta vida, catatico, de pé,

Qual da meditação condemnado galé! ...

Do descanço o desejo em minh’alma fez pouso;

Não sentindo eu, porem, semelhante repouso.

Satisfará em breve a sorte anhelo tal;

Em breve dormirei o somno meu final,

- Sem sonhar o que fui ou seria – um precito

Negro como as acções que tenho descripto.

Minha memoria é tumba a affectos mortos já:

Delles a sorte – em mim é a esperança que ha.

Fôra, emtanto, melhor ter com eles a morte

Do que exposto viver das angustias ao corte!

Minh’alma não buscou esse tumulto vão

Do primitivo louco, ou moderno poltrão:

Nem se furtou meu peito à agrura penetrante

Do sofrer mais atroz, do martyrio incessante.

 

Não recei jamais co’a morte me encontrar;

E na lucta me fora alegria sem par

Morrer, se fosse a gloria o meu nobre incentivo ...

E não fosse eu de amor o lúrido captivo ...

Affrontei-a, mas não por falsos ouropeis

De honras: despresei sempre à gloria os vãos laureis.

Trilhem outros a senda aberta à fama, ao premio,

De luctadores taes furtar-me-ei ao gremio

Mas, me ponham em frente aos olhos o penhor

De toda a minha vida – essa mulher que o amor

Me conquistou na terra, e o homem que eu odeio,

De novo lançar-me-ei à lucta, sem receio -

O destino a seguir, p’ra morrer ou matar.

Entre acerado forro e o fogo a flamejar.

Nem tu podes descrever de quem a ti confia

- Tendo-o feito uma vez – o que ora inda faria.

A morte, à qual se atira um homem de valor.

Ao covarde é supplicio, ao misero um favor! 

A vida volva quem nol’a deu: pois, se outr’ora

Não fugi ao perigo, hei de fugir agora ?

 

Anei-a, Padre: mais! rendi-lhe adoração!

Esta frase é, porém, mui banal expressão -

Provei-o por acções melhor verbalmente.

 

Há sangue deste gladio à lamina impotente

Que mancha perennalm indelével, contem

De quem matou aquella – idolatrado bem! ...

Que por mim succumnbiu: um peito detestável.

Este sangue aquecia, um peito abominável,

Não tremas, Padre; não te ajoelhes ante mim:

Aos delictos doutr’ora este exceptua, sim.

Que tu mesmo o perdão lhe darias, suponho:

Teu credo – ele o julgava escândalo medonho!

De Nazareno o nome era absyntho, era fel,

Desse negro pagão à perversão cruel.

Ah! louco desgraçado aos golpes das espadas

Com grande galhardia e valor manejadas

Por Galilleus, - morrer é o feito superior

Que leva o Turco até dos céos ao resplendor;

Pois das Huris o acolhe a multidão inquieta,

Em extasis de amor, às portas do Propheta.

Amei-a, sim: o amor pode caminho achar

Onde não ousa o lôbo a caça procurar,

Mas, quando o amor se atira a tudo, a recompensa

Corôa quase sempre essa porfia intensa - 

Onde, como, porque não importa saber ...

Em vão não procurei nem tive de sofrer;

Muita vez, com remorso, embalde hei desejado

Que ella houvesse jamais segunda vez amado.

Ella morreu, mas como? Eu tremo de o dizer ...

Nas faces, o escrevi, no rosto o podes ler! ...

Nota ahi de Caim o crime e a horrível praga

Em traços que do tempo a dextra não apaga.

 

Não me condenes já ... escuta-me porque:

O crime não foi meu: fui só motivo, crê.

Comtudo, o que ele fez tambem eu o fizera.

Se a outro amante, insana e pérfida, se dera.

Julgando-a ele infiel, no tumulo a encerrou:

Fiel julgando-a eu – minha dextra a vingou.

Por mais justa que fosse a pena, a crueldade,

A traição della foi – a mim fidelidade.

A mim ella entregára o ardente coração - 

- Quanto pude furtar à vil escravidão

Do tyranno! - : também eu lhe dei quanto pude,

Tarde embora ... e entreguei o algoz ao alaúde ...

Pouco me importa dele o trespasse; a feral

Sorte dela, porem, fez-me um homem fatal.

Della o destino estava escripto, e o conhecia

Pela voz do Tahir horrifica, sombria,

Desse abysmo que a sorte aos humanos subtis

Das balas funeraes, e sabe – na batalha -

Quem voará primeiro à rabida metralha.

Encetou a peleja, intrépido a luctar,

Sem torcer à fadiga ou à dor de esquivar;

Invocou de Mafoma o auxilio e piedoso

 

Orou ao Grande Allah que só é podferoso.

Elle o sabia: e à lucta indômito avançou.

Contra mim se atirando... e ali onde tombou

Assisti-lhe a agonia o derradeiro arranco ...

E como um leopardo, ao qual varou o flanco

A arma do caçador, ferido, não sentiu

Metade dessa dor que o peito me partiu.

Tentei, em vão tentei, sondar os pensamentos

Duma alma que se parte em dores e tormentos:

Do cadáver sombrio a mais leve feição

Remorsos não trahia e só indignação.

Que daria a vingança então, se ella alcançasse

Desespero notar na moribunda face,

Daquella hora tremenda à derradeira dor,

Quando o arrependimento é débil, sem valor,

Para afastar da tumba o horror que nella exixte,

Nem pôde allivio haver ou salvação p’ra o triste! ...

 

“Ao nado em clima frio o sangue é sem calor:

E o amor que lhe enche o peito é imperfeito amor.

O meu foi, porem, como a lava encandescente

Que o Etna o bojo igneo inflamma rubro, ardente.

Em débil voz queixosa eu descantar não sei

Os laços da Belleza, aquella que adorei ...

Se requeimada veia, a face transmudada.

Labios que sabem só franzir-se e não carpir,

Feito arrojado – e um ferro indômito a brandir,

E tudo que senti e tudo quanto sinto,

Podem pintar o amor, esse amor que assim pinto

Nalma o guardei sublime, embora de amargor

Muitas vezes travasse este infinito amor.

Gemer ou suspirar, de certo não sabia:

Eu morro, mas primeiro obtive quanto quis;

Ella foi minha! ... assim um dia fui feliz! ...

Devo temer a sorte a que marchei contente?

Não! De tudo privado, inda forte, e somente

Fraco à recordação de Leila que tombou

Quero de um bem fruir que às margens se mesclou ...

Inda eu vivera assim e de novo amaria ...

Eu não deploro triste, ó meu sagrado guia.

O que morre, mas sim aquella que morreu ...

No murmurante amor descansa o corpo seu!

Ah! seu tumulo fosse em terra, e sem demora,

 

Partido o coração, turbada a mente embora,

Iria procural-o e nelle repousar,

O seu leito de morte, alegre a partilhar.

Era forma de luz, de vida e de magia,

Que em so vendo uma vez, a vista nos prendia ...

E sempre aos olhos meus erguia-se louçam.

 

Bem como da Memoria a estrela da manhan!

Sim, o Amor tem dos céos o lume deslumbrante!

Um raio desta luz imortal, coruscante.

Aos anjos dispensada e que Allah nos doou,

De infamias, muita vez, a terra libertou.

A devoção transporta o espirito às alturas:

No amor o mesmo céo visita as criaturas:

O amor – essa affeição – da Divindade o dom

Para esmagar o crime e o homem fazer bem.

Raio de quem tirou o mundo aos cháos, ao nada.

Gloria que cinze e envolve a alma transfigurada!

Quero que meu amor seja imperfeito e até

Tudo que a língua humana e impropria a dizer é:

Meu amor se a um crime e tudo que quiseres,

Mas o della - por Deus!- crime não consideres!

Ella a meu ver foi magico clarão

Extincto este, que luz rompe a escuridão?

 

Brilhasse-me ella ainda a dirigir-me o passo

Para a agonia embora ... embora p’ra o traspasso!

Porque vos admiraes que aquelles para quem 

Já não ha mais prazer nem o inefável bem

Da esperança futura – encarem seu martyrio,

Revoltos, o destino acusando, em delírio,

E pratiquem na insania as mais negras acções

Que juntarem parece o crime às afflicções?

Ah! um peito que sangra assim, intimamente,

O golpe exterior não receia nem sente.

Quem da felicidade uma vez – triste – cáe.

Cuida pouco do abysmo enorme p’r’onde vae!

Atroz como o sombrio abutre – minha vida

Aos olhos tens, ó velho, exposta – conhecida.

Em tua fronte o horror, bem claro, posso ler ...

Mas esta rude prova eu nasci p’ra sofrer!

É verdade que, como essa ave de rapina,

Meu caminho marquei com sangue e com ruina;

Mas me ensinou a pomba, em seu tiel candor,

A morrer, sem jamais conhecer outro amor.

Os homens a lição aproveitem ao menos

D’avezinhas gentis de que zombara, pequenos!

A insonte ave que vai ao silvedo gemer.

 

O cysne que fluctua, o lago a percorrer,

Uma só companheira escolhem, carinhosos,

Com a qual seu affecto, em arrulo queixosos,

Ou sobre o azul da lympha, em dose deslisar,

Dividam ternamente, as plumas a rufar ...

O leviano, prompto a escarnecer de tudo

E a tudo despresar que é grave, que é sisudo

E se mostra constantemente – embora compartir

Do brinco faça insensato, - fruir

Desse prazer não quero insano, variável.

E julgo um homem tal fraco, descaroavel.

Menos que o branco cysne ali no lago a sós:

 

E muito inferir àquella que a feroz

Seducção maculara – ouvindo fementida

Phrase de amor que a fez tresloucada, perdida.

Tal infamia jamais, na vida, cometi.

Leila, meu pensamento alcei somente a ti,

Minha fortuna e crime, e magoa e felicidade,

Meu tudo sobre a terra e além na immensidade!

 

A terra outra mulher como tu não terá.

Ou quando possa tel-o embalde a mim será.

Dos mundos através, nos rutilos espaços.

De mulher não verei tão primorosos traços!

De minha juventude os delictos, e até

Esse leito de morte, atestam minha fé!

Assim foste e serás, ó sonho meu querido,

A loucura dilecta ao coração transido! ...

 

E Leila pereceu e emtanto não morri!

Mas da existência humana o ambiente não frui;

Uma serpe enroscou-se a meu peito magoado.

E a luctar me incitou co’o estim1lo envenenado.

Então da Natureza à face me ocultei;

Aborreci o tempo, os logares odiei

Por onde o grato azul outr’ora me encantava,

Quando esta escuridão meu peito não velava.

Sabes o resto já, a minha confissão:

Minhas faltas ao todo, em metade a afflicção ...

Mas não me falles mais em arrependimento;

Tu vês que é prestes já meu triste passamento.

Se é certa a narração que que acabas de fazer,

Acaso o que já fiz podes tu desfazer? 

Não me julgues ingrato; o teu bom ministerio

Não oferta à saudade o menor refrigério.

Secreta conjectura a alma ocupou-me assim

Falla menos: condoe-te um pouco ais de mim.

Quando puderes dar à minha Leila, vida,

Eu solicitarei teu perdão, e attendida

Minha causa será naquelle tribunal

Aonde ingresso dá uma missa venal.

Vai consolar na selva a leoa solitária.

Quando do caçador a dextra temeraria

À caverna lhe rouba a progênie a gritar ...

Respeita minha dor, não tentes me acalmar.

 

Em tempo já remoto, em dias mais ditosos,

Quando a meu coração com outros venturosos

Aprazia estreitar-se, em bello paiz.

Tive um amigo ... então ...tel-o-ei ora infeliz?

Chegar faze-lhe às mãos esta prenda mimosa.

Meu nome, obscuro embora, é-lhe caro em verdade.

Mui singular é que elle houvesse lido já.

 

Ao longe, o meu porvir de triste pariá:

E ria-me que , entretanto (então rir-me podia! ).

Quando, em prudente voz, da sorte me instruia

E do mundo enganoso, emtanto, caminhei

Indiferente a tudo; e a voz que despresei

Noutro tempo, segreda-a a meu ouvido agora

Da memoria desperta: a vibração sonora

Diz-lhe que seu presagio horrível e fatal

Passou da fantasia à existencia real:

Que ele ouvindo a verdade, attonito, aturdido.

Ante desgraça tal, quizera ter mentido!...

Diz-lhe que apesar da enorme confusão

Em que vivi e fez tremer-me o coração,

De nossa mocidade aos límpidos fulgores.

Das magoas deste mundo ao fel aos dissabores.

Meu lábio a bemdizel-a apenas aprendeu.

E sempre abençoou, até que emudeceu!

Talvez que o mesmo céo em ódio se tornasse

Se o crime supplicar pelo {+} {+}

Não lhe peço o favor das faltas {+}

Mui generoso elle é para me maldizer: 

E que actos pratiquei de fama, de renome?

Eu não lhe peço pranto: ao ouvido tal nome

Como escarneo {+} ou sarcasmo cruel.

E que de melhor pode um amigo fiel

Que a lagrima ofertar ao tumulo querido

Dum irmão? Este anel, outr’ora possuído

Por elle, dar-lh’o, e narra o que acabas de ver

O espírito arruinado, o corpo a falecer,

 

Alga inútil e só, das paixões refugada.

Rugoso pergaminho, ou folha requeimada

Pelo verbo do outomno áspero que a lançou

Ao longe, pelo chão, e ignota a abandonou!

 

Ah! não digas, por Deus! Que é louca fantasia;

Imaginoso sonho eu não relataria:

Quem sonha há de primeiro, insensível dormir:

Velei, e quis chorar, mas sem o conseguir.

Porquanto minha fronte a mover-se estava.

E meu cérebro então, como agora, escaldava.

Uma lagrima só, de pura irradiação,

Eu a desejo ainda, eu a queria então! ...

O desespero vence em forças a vontade

E a fervida oração, que vôa à imensidade.

Pudesse eu ser feliz, deixara-o se, pesar:

{+} o paraiso ...anhelo descansar ...

{+} a então. Padre, sim: encantadora, via 

{+}como outr’ora linda, esplendida vivia ...

{+} num sudário alvíssimo, a brilhar

{+} como aquella estrela além, a fulgurar

 

Entre a nuvem ligeira, eu vi Leila adorada

Que me observa de longe – amante desvelada.

Mal à estrela percebo um tremulo fulgor:

A {+} de amanhan será de mais negror,

E eu, antes que percorrera os espaços seu raio,

O inanimado ser que aos vivos faz desmaio.

Eu tresvario, ó Padre: o espírito atual

Rebusea, pressuroso, o termino letal ...

Sim, Padre! Vi-a, ergui-me os males olvidando

Primeiros que nos dera o destino nefando;

E abandonando o leito, em ardente expansão,

Corri a comprimil-a ao triste coração.

Abraço-a, mas que abraço! Ao conchego amoroso.

Cinjo apenas um ser ethereo, vaporoso;

Nenhuma pulsação responde ao peito meu:

Contudo, Leila, vejo o aspecto meigo teu! ...

E és tu, minha querida, assim transfigurada

Que vejo e que te esvaes fria mão amada?

Fosse tua beleza embora glacial

Como então, eu quizera, em transporte ideal.

Cingir-te quando um peito amoroso deseja ...

Em derredor de mim aerea sombra adeja

 

Escapando a meu peito – ermo de luz e fé ...

Comtudo, eil-a a adejar! Silente eil-a de pé

A me acenar gentil com as mãos suplicantes.

A coma em linda trança e os olhos fulgurantes ...

Mentira! Não podia esta mulher morrer!

Elle, porem, morreu! Ainda o estou a ver

{+} valla onde a estrebuchar tombara!

Elle não volve mais: foi em vão que tentara

Aterra espedaçar ...Ai! como tu então

Acordas de teu somno?! ... Estulta narração

Fizeram-me, dizendo estares mergulhada

Sob as ondas do mar, que a face idolatrada.

E a forma deslumbrante estão a te esconder: ...

Disseram-me e não posso, entretanto, nisto crer:

Se é verdade, porem, que tu vens do oceano

Um sepulcro pedir mais calmo e mais humano.

Oh! perpassa-me a dextra orvalhada, gentil.

Sobre a fronte que então já não será febril ...

Toca-me o coração roto, desesperado ...

Mas ou realidade – ou phantasma encantado,

De novo não te vás: peço-te compaixão!

Leva comtigo esta alma além, pela amplidã

Antes que ella se vá na aza subtil dos ventos

Fluctnar, ou dormir do oceano aos lamentos ...

 

De minha historia eu te fiz sabedor.

{+} ao fiel ouvido, confessor, 

Amarguras sem fim que, misero, deploro

E muito te agradeço eu – que sofro e não choro,

 

“A lagrima- esse dom de um nobre coração.

Do mais humilde morto eu quero meu caixão:

E, salvo pobre cruz junto a minha cabeça,

Nem uma só palavra, ou emblema apareça,

Que attraia o forasteiro a lel-o e a meditar,

Ou retarde o viajor que acaso ali passar ...”

 

Elle morreu! ... Um traço, um signal passageiro,

Não deixou de seu nome ou família o extrangeiro,

Salvo o que na hora extrema o Frade lhe escutou

Em sagrado sigillo: e da mulher dilecta,

E do que ele matou, apenas incompleta

Narrativa presente é quanto a nós chegou.

Tradução Filinto Bastos

Caetité, Bahia

10 de Julho a 15 de Agosto de 1890.

PENA DE OURO

Pouca coisa me dava tanto prazer como traduzir, transladar para o português, o que grandes autores produziam.

 

Apesar da falta de agenda, anotei o período em que me debrucei sobre a escrivaninha que também ganhei em Recife, época do discurso abolicionista, junto com a caneta pena de ouro.

 

Para exemplificar, avancei sobre 1.332 versos alexandrinos perfeitos, rimados, em parelhas de ‘A Giaour – Fragmento de uma narrativa turca’. A seguir...

 

Modéstia à parte, domino latim, francês, italiano e inglês. Sem preferência.

 

Só mesmo o português paterno que herdei. Na verdade, as pátrias não têm línguas. Tem linguagens.

 

Do latim, verti um Papa – como já explicitado: Leão XIII e os versos da ‘Primeira Parte da Epístola a Fabrício Rufo’.

 

Do francês, duas poesias traduzidas de Alfredo Musset, ‘Adeus’ e ‘Improviso’.

Aqui entrego para sua análise:

 

IMPROVISO    

Em resposta a pergunta: O que é poesia?

(Traduzido de Alfredo de Musset) 

Recordações deixar, fixando o pensamento,

Em fino eixo doirado atêl-o em movimento,

Irrequieto, dubio, imóvel entretanto;

Um sonho eternizar veloz, d’extasi santo;

Amar o bello, o bem, roubar-lhes

Em seu peito escutar do gênio a melodia;

Cantar, rir, chorar, só, à tôa, sem pensar,

D’um riso, d’uma voz, d’um ai, d’um meigo olhar,

Um momento erguer, cheio de medo e encanto;

                   Per’las tirar do prato:

No mundo eis do poeta a divina paixão,

Sua ventura e vida,  é única ambição;.

Feira de Sant’Anna, 30 de Dezembro    

 

Feliz em ter levado os livros para o interior da Bahia.

É como se o mundo viesse me visitar.

 

DEGRAU O GIAOUR

Caetité (Bahia) – 10 de Julho a 15 de Agosto de 1890.

Foram 36 dias de pura transpiração.

Sim, fazia calor no Recôncavo – e em toda Bahia.

Época de chuva.

Umidade.

Com muita humildade, perdoem o trocadilho, me debrucei sobre um dos poemas mais belos que já li.

Não resisti.

Traduzi.

Deixei uma cópia no meu Bloco de Anotações.

A obra de Lord Byron, britânico e caudaloso, me transportou para lugares ermos, longínquos.

Para conhecê-lo por inteiro, será que preciso que você navegue por outro arquivo que debe receber junto com esta Segunda Vida.

POEMA 

Sou um parágrafo. Clique aqui para adicionar e editar seu próprio texto. É fácil.

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