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AMARGOSA

JUNHO
E chega a época de São João...

Era meu destino parar em uma cidade que ganhou o apelido de ‘pequena São Paulo’. 
Bem localizada, ponto de troca comercial com o sertão, a Vila de Nossa Senhora do Bom Conselho das Amargosas foi

elevada a condição de cidade em dia 2 de julho de 1891. A decisão tinha sido decretada em junho pelo governo do Estado. 

Um bom motivo para a festa junina. 

Não recordo exatamente o mês em que lá cheguei. Precisaria consultar os meus alfarrábios. Não estão aqui comigo. 

A palavra vem de uma espécie de pombo, um pássaro, que existia nos bosques – e era muito caçado na região. A tiro ou a bodoque. 

Apesar da carne amarga, diziam: 

– Vamos para as amargosas...

As festas de junho, os eventos juninos, eram uma só alegria. Até porque acompanhavam a colheita da agricultura. 

Cidade do fumo e do café, a Amargosa dos futuros sogros seguia o calendário religioso. Santo Antônio no dia 13 de junho,

São João Batista no dia 24 e São Pedro no dia 29 são heranças portuguesas com um batismo bem brasileiro na música, nas roupas e nas comidas com base no milho e na mandioca – e bons aguardentes de cana. 

A vaquejada era o ponto alto.  

Soube que a festa se profissionalizou em Amargosa, virou até atração turística.  

No meu tempo, sob a égide das indústrias fumageira e cafeeira, era o contrário. Por lá chegaram imigrantes franceses,

italianos, espanhóis e ingleses. Todos em busca de novos negócios. O comércio ganhou armazéns de secos e molhados e empórios para importação e, principalmente, exportação d e café e de fumo. 

A elite da vila reproduzia – ou tentava – os valores sócio-culturais da sociedade europeia.  Construções ganharam projetos ambiciosos, com molde no estrangeiro. 

Modelos góticos. Arquitetura francesa. Traços gregos. 

Como prova, lá estão a catedral e o coreto. Se a memória não falha, eu e Carolina podemos ter começados a nos embalar

nas apresentações de Filarmônicas, um deleite para os ouvidos e para imaginação. Também embalavam as festas em clubes carnavalescos. 

O jovem Sales Barbosa bem que apreciava, solteiro que era. 

Um Cine-Teatro garantia apresentações teatrais vindas da Europa. 

Do ‘outro lado da rua’, era possível sentir a presença dos afrodescendentes que desembarcaram na condição de escravizados para a cultura do café. Por toda parte, ouvia-se seus ritmos musicais. Era para eles que o mesmo Sales, amigo de longa data, dava tanta atenção. 

Assunto não falta. 

 

CALU
Um passo para frente... Meu momento mágico. 

Eu era juiz em Caetité, mas atendia a região de Amargosa.
Corria o ano de 1884 e já comemorava o vigésimo oitavo aniversário. 

Carolina da Silva Rocha, carinhosamente chamada Calu, filha de José Feliciano e Januária, era uma adolescente de 13 para 
14 anos. A conheci pelo dever da profissão. 
Primeiro, tive contato com o pai, que tinha recebido o título de capitão, por regra do Império, para prestigiar os donos de

terras. 
Posso ter sido convidado para um almoço na famosa Fazenda Timbó. 
Outra versão seria uma missa onde fui apresentado para Dona Januária Rocha. Forte sobrenome. 
Talvez, quiçá, as filhas e filhos do casal estivessem na missa. Seria uma quermesse? 

Fica o mistério: como terei conhecido Calu? 
Nunca revelei nos meus escritos. 

Ao casarmos, ela tinha 20 e eu 35. 
Por que alguém se apaixona por alguém tão mais jovem? 

Ela era virgem. 
Eu era virgem? 
Fica aqui a dúvida para vocês, herdeiros.

Compartilhamos a alegria dos passeios. 
Até hoje, tem dia que saio de casa já com vontade de voltar. 

Ela e eu...  

Em uma carta, meu pedido da ‘mão della’.
A escrevi sob forte emoção.  

TIMBÓ
A mania professoral me persegue: Enterolobium contortisiliquum é o nome científico de Timbó. O povo chama a árvore de tamboril e timbaúva. 
Também de orelha-de-negro e orelha-de-macaco. 
É nativa da flora brasileira. 
Outra versão reza que, em tupi, Timbó significa ‘o que tem cor branca ou cinzenta’ e também se chama ‘tingui’. 
Os indígenas consideravam ‘líquido do enjoo’ o que dele se extraia. 
Titim era a palavra utilizada para o efeito lisérgico. 
Cipó trepador usado na pesca para entorpecer os peixes – e nos chás medicinais fervidos em rituais. Dizem que abriam as

portas da clarividência e da mediunidade. 
E apelidou a fazenda de meu sogro. 

 

DESTINO: FESTA DE CASAMENTO
Casamo-nos. 
Celebração pelo Cônego-Vigário J. Soares Portella no dia 10 de janeiro de 1891. 
Guardo no olhar a certidão, junto com o testemunho de José Antonio Torres da Silva e de Idelfonso Fernandes da S. Bastos. 
Fazia muito calor na Fazenda Timbó, de meus sogros. 
Uma propriedade grande, de 7.000 tarefas, povoada de matas com madeiras de lei de qualidade. A festa foi em uma das maiores casas da região, bem ao estilo tradicional, com separação da senzala habitada por escravizados. 
Lugar de destaque para o piano, onde as ‘meninas’ tinham aulas de música, em um majestoso piano importado.
A família se dedicava ao plantio de café, saudoso fruto que passei a admirar em São Paulo, e criatório de gado. Mas não me perguntem a raça, porque não as sei. 

 

Abro mais parêntesis: cinco filhos. 

  1. Eng. Agr. José Feliciano da Rocha Filho; 

  2. Bel. Floriano da Silva Rocha;

  3. Carolina da Silva Rocha – minha esposa  

  4. Elisa Rocha Pirajá da Silva – esposa do dr. Manoel Augusto Pirajá da Silva;

  5. Oliva Rocha de Freitas Borja – esposa do dr. Antonio Bastos de Freitas Borja.   

 

O mais velho seguiu o nome e o talento do pai e se formou em engenharia agrônoma. Trabalhou em Recife e retornou para a Bahia, onde organizou o Campo de Experimentação de São Gonçalo dos Campos. 
O irmão Floriano seguiu o Direito, mas faleceu cedo. 
Elisa, irmã querida de Carolina, casou-se com um médico e pesquisador sobre quem vou me debruçar em momentos.

Manoel Augusto Pirajá da Silva é renome internacional. 
Finalmente, apresentei a quinta filha de Januária e José Feliciano, a Oliva, para meu sobrinho-afilhado Antonio Borja,

o médico-cirurgião. 
Um casamento gerando outro matrimônio. 
Como dito, foi uma bonita festa. Teve viola e muitos passarinhos cantando. 
Portas abertas para familiares, vizinhos e amigos. Sempre ‘autoridades’ que nos cercam. Inevitável. 
Frutas em abundância como descrito na poesia ‘Janeiro’. Das naturais e das sementes trazidas pelos colonizadores, caso da manga, que delicío, sabidamente da Índia. Huuum. 
Comida sertaneja como sói acontecer nessas datas. 
Sou esfomeado de baixo calado. 
Faltaram os ‘pratos estrídulos’ fazendo sons musicais, as ‘castanholas espanholas’ e o ‘lundu’ dos negros de Feira.

Aguardente e vinho para os adultos, sem faltar licores naturais e vinho do porto na sobremesa. 
Sou pouco de beber. 
Doces. Doces. Doces de todos os tipos.

Bolo de casamento. Pão de festa, sucos e groselha para as crianças. Sobrou alegria

para infantes e moços comportados sob as copas das árvores e os salões da Casa Grande.  
Um dia cheio de ‘benças’ e ‘bençãos’ para tios e avós, parentes e contraparentes, convivas e convidados, fora os penetras,

que sempre se apresentam com carteira de identidade. 
Mesa farta e bem posta, quindim e queijo do reino reinando no móvel da sala, um lombo bem temperado, sanduíches que

nem se chamavam assim, quartos de boi entrando na casa, sabor azedinho das amoras colhidas no pé. 
Nos cômodos internos, escravas libertas e alforriadas passavam ferro a carvão. Roupas engomadas e passadas. 
Na varanda, as frestas das tábuas estavam tinindo de lustradas. 
Não recordo se serviram a carne da pomba ‘amargosa’. 
Creio que não.

Fazenda Timbó

CAETITÉ

Fazenda Timbó atualmente
Amargosa  atualmente

ADEUS A FELICIANO

1907 marca a despedida de meu sogro, o querido José Feliciano da Rocha, com quem sempre troquei cartas.

 

Todos os anos seu nome era publicado no Almanaque Laemmert/Administrativo, Mercantil e Industrial RJ. Esteve lá, pela última vez, feito carimbo, na lista de ‘Fazendeiros, lavradores e criadores’. Eram 10 grandes propriedades. Feliciano é colocado como DR, de Doutor. Mais uma honraria. Assim como Capitão, que ganhou no período do Império. Cá entre nós, melhor do que Coronel...

 Com seu passamento, o Almanaque o substituíu por Januária, mãe de Carolina.

 Constava, ainda, um mini-inventário sobre outras atividades:

 – Ha na cidade 8 cabelleireiros, 25 tendas de sapateiros, 12 alfaiates etc.

 Nessa época, tinha também 03 Irmandades, 04 Armazéns de Secos e Molhados, 04 Fazendas de Café e Fumo – e por aí vai. Como se dizia, era uma mini-São Paulo. Se bem que me lembrava a capital paulista que conheci, ainda pequenina.

 O Almanaque de 1907 a descrevia:

 – Cidade, séde da Comarca e Município de mesmo nome, servida pela estrada de ferro Tramroad de Nazareth, acha-se colocada em um planalto de 403 metros acima do nivel do mar, próxima ao riacho Ribeirão, possue ruas largas, todas calçadas com edificações bem importantes, salientando-se o predio escolar. Existem na cidade um hospital de Misericordia, duas sociedades filarmônicas, dous clubs sportivos e duas associações, o Club Caixeral e Recreativo dos Artistas.    

 Como narra o redator, “... (o município) é dotado de um clima suave e ameno, o seu terreno regado por chuvas frequentes e abundantes, presta-se a todas as culturas, e é de uma fertilidade prodigiosa. Produz fumo, café e mandioca e tem boa criação de gado vacuum. Comprehende os povoados de Tartaruga, Corrente, Brejões, Cavaco e Corta-mão. População 21.000 habitantes com 817 eleitores”. 

 

TIMBÓ DO FUTURO

Dou um salto para o futuro – para saciar sua ansiedade.

Por acordo familiar, a Timbó ficara com a filha Oliva e seu marido Antonio Bastos Freitas Borja – meu afilhado e médico particular.

Em 1933, com o falecimento de Antonio, o filho Clovis, apesar de ser do Direito como eu, resolve assumir a empreitada. Um desafio e tanto. Desejo-lhe sucesso.

Soube que procurou modernizar alguns processos agrícolas e de pecuária – além de interromper a atividade da madeireira, que abastecia as novas construções.

As florestas agradeciam.

 

Com a idade, já não consigo viajar com tanta facilidade.

Amargosa ficara na memória, embora ainda tentasse para lá retornar.

 

CORTA-MÃO

Aqui, por dever de ofício de juiz e curioso como um poeta, me debruço sobre as lendas em torno do nome Corta-Mão – povoado citado logo acima.

Parece ficção.

Nenhuma versão se pode comprovar. Uma das hipóteses é que foi assim denominado por causa da linha de trem que ia de Nazareth até Jequié. O desvio para Amargosa, um braço dos trilhos, teria determinado o apelido.

Há contradições porque o nome seria muito anterior.

O povo diz que um pescador de Pitu teve a mão presa em uma roca de pedra. E cortou a mão para sobreviver.

Ouvi dizer que a origem estava em uma briga, onde um dos contendores cortou a mão do outro.

Seria um ‘olho por olho, dente por dente´?

O código de Hamurabi da Mesopotânia de 1700 antes de Cristo em pleno Recôncavo? O que era para organizar a sociedade, teria tomado outro rumo?

Ainda bem que não fui juiz desta disputa de facões.

Escrevi sobre a vingança – que a nada leva...

EU, POETA NOS ANOS 1880

Ao exercer variados cargos na Justiça, encontrava tempo para algumas letras – e em versos alexandrinos, as tais 12 sílabas poéticas onde o segundo verso é mais longo, as tais estrofes isométricas que são apenas superadas pelos versos alexandrinos arcaicos, de 14 sílabas.

ITABIRABA

Qual vela de navio, ao longe, pardacenta,

Que aos beijos de suave aragem bonançosa,

Do largo mar co’a onda azul e preguiçosa,

Além, brincando vai, tranquila, mansa, lenta;

 

E o pensamento arrasta à região formosa,

Lá onde a fantasia o solio d’oiro assenta

– Regio alcaçar de luz, que nossa alma aviventa,

Na quadra juvenil – de amores dadivosa;

 

Ó filha do sertão, ó rocha sobranceira,

Assim foi que te vi – o sol já declinando,

Gentil Itabiraba, ao longe, a vez primeira!

 

E vendo-te, senti que o alado pulchro bando

De minhas illusões, sonata alvissareira

De glorias e de amor, nessa hora ia cantando.

 

Camisão, 1983, F.B.

 

Sim, o lirismo me atrai. Mesmo na hora de protestar.

Sim, o lirismo me atrai. Mesmo na hora de protestar.

 

PROTESTO

Cahia a tarde. O sol cançado do seu gyro

No leito do occidente –la poisou alem{ +}     

atravessaste a estrada: o  { +}  

Bem longe te levava. O mais fundo suspiro

 

Voou-me d’alma a ti, o virgem { +}  

Dos meus sonhos de amor esplendida visão

Voou a  { +}  foi como essência  custosa

Errante se perder, abandonada ao chão

 

Terrivel do despreso

Pois bem: Ainda assim te juro: O meu amor

Tenho de fatalmente estar ao ódio prezo

 

Ao ódio que fulmina, ao ódio teu, mulher,

Eu quero respirar o venenoso odor

Que essa mancenilheira – o teu amor – me der            

Amargosa - 86      

FILINTO BASTOS

Acho que a água de Amargosa também me fazia bem. Fui produtivo nas letras.

 

E quem terá sido o jovem bacharel chamado Mario? Mistério sem revelação.

Pois foi para ele e seus pais que dediquei algumas letras.

PARABENS

Voltava o bacharel o jovem Mario,

Aguarda-o a família com funcções

Depois de um curso tudo - DISTINÇÕES

Custosos, ricas, de caracter vario.

 

Abraçam-n’o os irmãos enthusiasmados;

O pae, um titular, com grave outuno,

D’um annel de brilhantes fal-o dono

Depois dos comprimentos costumados.

 

Uma moça gentil – cândida rosa –

Corando, o peito insonte a palpitar,

O noivo seu revê – toda orgulhosa.

 

A mãe oscula o filho, e ao apertar

De encontro ao seio Mario, venturosa

Nada pode dizer: põe-se a chorar...

Amargosa - 86

Filinto Bastos             

Na mesma Amargosa, escrevi o poema Reverso da Medalha.

Meu preferido é Reflexos, de 1887, dedicado a ...você sabe quem.

 

REFLEXOS

Vi-te, mulher! Ousei pensar que inda serias

A eleita de minh’alma, a luz do meu porvir.

Julguei achar em ti as doces harmonias

Que faz vibrar o amôr, que o amôr nos faz ouvir.

 

Ah! quanta vez te vendo o cutis delicada,

As faces como o arminho, e os labios de coral,

Teus olhos, cuja luz tão dôce e tão quebrada

Tem uns longes de lua, e uns toques de crystal;

 

Co’peito em commoções, de todo já rendido,

À phrase mais ligeira, ao mais ligeira tom

De tua linda bôcca, eu via resolvido

O problema do amôr suave, casto e bom!

 

Eu vejo-a a reflectir no oval do espelho,

Que lhe orna a sala principesca e linda,

Desde a face gentil de graça infinda,

Desde a cambraia que lhe amolda o joelho,

Té seu pé tão pequeno e tão catita

 Envolto na sandalia,

Que ella, mimosa, com meiguice agita

 Qual a rubente dhalia.

 

Cá estou eu a descobrir um ato falho. Diferenciar-se por ter ‘sala principesca’ só é válido se for figura de linguagem.

 

Carolina foi assim para mim.

 

Em outro momento poético, confidenciei minha paixão:

 

excerto de REVERSO DA MEDALHA

 

A teu seio inclinado, immerso em em aureas tranças,

Sentindo-te, gentil, arfar o coração,

Cheio de immenso ardôr, as minhas esperanças

Abriam-se, a sorrir, do magico botão.     

 

Como dá para perceber, nunca fui o casto que me creem. Citei seios, pés, tranças, joelho, boca, cútis... Descrever o amor é complicado. E recatado.

 

Faço cálculos sobre o que as mudanças ortográficas da língua portuguesa fará sobre meus poemas, traduções e, também, sobre meus ensaios e livros jurídicos.

 

Digam-me, imortal que sou.

Risos.

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